quarta-feira, 11 de maio de 2016

♥ Como mudar o mundo



Era uma vez, um cientista que vivia preocupado com os problemas do mundo e decidido a encontrar meios de melhorá-los. 

Passava dias e dias no seu laboratório à procura de respostas.

Um dia, o seu filho de sete anos invadiu o seu santuário querendo ajudar o pai.

Claro que o cientista não queria ser interrompido e, por isso, tentou que o filho fosse brincar em vez de ficar ali, atrapalhando-o.

Mas, como o menino era persistente, o pai teve de arranjar uma maneira de entretê-lo no laboratório. 

Foi, então, que reparou num mapa do mundo que estava na página de uma revista. 

Lembrou-se de cortar o mapa em vários pedaços e depois apresentou o desafio ao filho:

- Filho, você vai me ajudar a consertar o mundo! 

Aqui está o mundo todo partido. 

E você vai arrumá-lo para que ele fique bem outra vez! 

Quando você terminar, me chame, ok?

O cientista estava convencido que a criança levaria dias para resolver o quebra-cabeças que ele tinha construído. 

Mas surpreendentemente, poucas horas depois, o filho já chamava por ele:

- Pai, pai, já fiz tudo. Consegui consertar o mundo!

O pai não queria acreditar, achava que era impossível alguém daquela idade ter conseguido montar o quebra-cabeças de uma imagem que ele nunca tinha visto antes. 

Por isso, apenas levantou os olhos dos seus cálculos para ver o trabalho do filho que, pensava ele, não era mais do que um disparate digno de uma criança daquela idade. 

Porém, quando viu o mapa completamente montado, sem nenhum erro, perguntou ao filho como é que ele tinha conseguido sem nunca ter visto um mapa do mundo anteriormente.

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que, do outro lado da página, havia a figura de um homem. 

Quando você me deu o mundo para eu consertar, eu tentei mas não consegui. 

Foi aí que me lembrei do homem; virei os pedaços de papel ao contrário e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. 

Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que tinha consertado o mundo.

♥ Seu coração em círculos




Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? 

Quando alguém se vai embora de repente, como é que se faz para ficar? 

Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já não está lá? 

As pessoas têm de morrer; os amores acabar. 

As pessoas têm de partir, os tempos têm de mudar. 

Sim, mas como se faz? 

Como se esquece?  

Devagar... É preciso esquecer devagar...

Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. 

Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, mas não se podem despejar de repente. 

Elas não saem de lá. É preciso aguentar... 

Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. 

É preciso paciência. 

O pior é que vivemos 'tempos imediatos' em que já ninguém aguenta nada. 

Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. 

Ninguém aguenta estar triste. 

Ninguém aguenta estar sozinho. 

Tomam-se conselhos e comprimidos. 

Procuram-se escapes e alternativas. 

Mas a tristeza só há de passar entristecendo-se. 

Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo... 

Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. 

É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução... 

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos de enfrentar. 

Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois, a dobrar. 

♥ Imperfeições levando à autotransformação




Encorajo-me a usar as Quatro Nobres Verdades em meu dia-a-dia. 
Para fazer isso, temos de usar a reflexão. 
Quando estamos a sofrer?
Quando estamos magoados, zangados, com raiva, desiludidos?
Nesse momento têm de aprender a refletir: porque estou zangado? 
Qual é a causa disso? 
Que expectativas tenho? 
A que modelo estou a me agarrar? 
Esse tipo de reflexão lhes permite ver muito claramente como estamos a criar sofrimento para nós mesmos.
E esse tipo de reflexão pode naturalmente aflorar uma autotransformação. 
Ele também permite observarmos a nós mesmos ao invés de olharmos outras pessoas. 
Então quando você aprende a refletir e olhar cada vez mais para o seu próprio comportamento, você vê mais claramente seus monstros, fraquezas, falhas e talvez alguns aspectos positivos também! 
Então isso vai realmente lhe ajudar em sua relação com outras pessoas, quando você vê as fraquezas de outras pessoas: Ah, eles são como eu e eu sou como eles. 
Então você pode ter um verdadeiro sentimento de unidade com seus companheiros seres humanos e ver que somos apenas um grupo de seres humanos imperfeitos.
O que é importante sobre essa reflexão é que você não apenas vê suas fraquezas e falhas, mas você aprenderá a ver suas qualidades positivas também. 
Você terá de ter um bom equilíbrio para se ver objetivamente como você é mesmo. 
É muito importante ver tanto as falhas como também aquilo que chamamos de sucesso.

♥ A prisão das superstições




Uma das características marcantes dos ensinamentos do Buda, é sua implacável oposição a todo tipo de crença infundada, mesmo aquelas que nos chegam de fontes religiosas. Uma porção significativa das conversas do Buda com religiosos brahmāṇicos e andarilhos espirituais de sua época girou em torno do esclarecimento de questões com esse tema. Ontem, como hoje, as pessoas se refugiam nas crenças, nos ritos e nos feitos mágicos, pois sentem necessidade de um ‘poder maior’ que as protejam. E apesar de combatidos pelo Buda, mesmo o Budismo não escapou de se tornar no decorrer dos séculos um lugar cheio de superstições, de palavras e ritos mágicos, de superstições. 

Todas as formalidades supersticiosas e crenças são como prisão. Quanto mais ignorância existir, quanto mais faltar a alguém o conhecimento correto, mais será este alguém apanhado na armadilha das prisões das superstições. Atualmente, a melhoria da educação e da ciência, levou a um melhor entendimento das verdades naturais, e de todas as coisas. Ainda assim, permaneceram muitas armadilhas nas prisões da superstição. Isto é uma coisa pessoal. Algumas pessoas são apanhadas mais vezes e outras menos. As pessoas são apanhadas em graus e modos diferentes, mas podemos dizer que ainda existem pessoas apanhadas e enganadas pela superstição.

Embora a superstição em geral tenha diminuído grandemente devido ao progresso da ciência, existe ainda uma boa quantidade de prisões nos templos e igrejas. Por favor, perdoem-nos por dizer isso, mas o local onde podemos encontrar mais superstição é nas igrejas, nos templos, e nesse tipo de lugares. Embora a superstição tenha diminuído em geral, muito permanece nesses lugares. Onde quer que existam altares, onde quer que as pessoas se curvem e adorem as assim chamadas coisas sagradas, ali é o lugar onde persiste a “ciência do dorminhoco”. Superstição é para pessoas que estão dormindo. É para aqueles que não entendem corretamente, que são ignorantes. Temos aprendido estas coisas desde crianças, antes de termos a inteligência e a capacidade de pensar sobre elas. Crianças acreditam em tudo que é dito, e assim os “adultos” lhes ensinam muitas coisas supersticiosas. Se vocês ainda acham que treze é um número azarado, ainda estão dormindo. Existem muitos outros exemplos de superstição, mas achamos melhor não nomeá-los. Algumas pessoas podem se sentir ofendidas. Estes tipos de coisas são prisões. Porque não olhamos com cuidado suficiente para vê-las como tal, mesmo o número “13” se torna uma prisão.
Muitos são os refúgios, montanhas e florestas,
Mosteiros e altares sagrados, para os quais os
Homens fogem na hora do medo.Esses não são refúgios seguros, não são o refúgio supremo.Não é dependendo deles que é possível se ver livre do sofrimento”.
Essas são palavras poderosas para nossos tempos, úteis igualmente para não budistas, como para os sinceros seguidores do Buda.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

♥ O coração é nobre


A ideia de que a vida não tem sentido se os desejos não forem satisfeitos é resultado de um pensamento estreito. 
É um sinal de que só se pensa em si, com uma ideia bem estreita sobre si mesmo. 
Mesmo quando a vida parece sem sentido porque nossos desejos particulares não foram satisfeitos, ainda temos possibilidades ilimitadas. 
Podemos ver que é assim porque nossa vida alcança muito além de onde nos encontramos a qualquer momento.
Nossa vida é vasta. 
Ela não termina nos limites daquilo que pessoalmente vivenciamos. 
Não é algo concreto ou delimitado. 
Não acho que seja válido encarar nossa vida como estando limitada a nós mesmos — como se a vida humana alcançasse apenas até onde vai nosso próprio corpo. 
Em vez disso, podemos ver que a vida se estende por todas as direções, como uma rede. 
Jogamos a rede e ela vai se expandindo. 
Exatamente assim, nossa vida se estende para tocar muitas outras vidas. 
Nossa vida pode alcançar adiante e se tornar uma parte constante da vida de todos.
Acredito que nossa vida pode parecer sem sentido apenas quando pensamos nela de modo limitado, como sendo apenas aquilo que está diretamente ligado a nós.
Pessoalmente, se eu fosse encarar minha própria vida assim, ela seria totalmente sem sentido.
Mas quando vejo minha vida como algo expansivo, e vejo que posso trazer alguma felicidade e alegria nem que seja para apenas uma pessoa, então sei que minha vida realmente tem significado.

♥ A prática espiritual não é um atalho para o seu sonho de consumo




Precisamos trabalhar e precisamos dormir, mas o ponto crítico aqui é que o lazer não deve ser somente uma pausa de revitalização após um dia duro de trabalho. Utilizar o tempo de lazer, dentro de uma ética viciada em trabalho, requer uma mudança em nossas prioridades. Isto significa ter um trabalho que apoie gradualmente a prática espiritual, e assegurar que a prática espiritual não se torne apenas uma ferramenta para melhorar o desempenho no trabalho.
A prática espiritual não é um atalho para o sonho de consumo. 
Nem um ornamento para uma vida confortável. A recitação do Nam Myoho Rengue Kyo  se dirige às causas fundamentais do sofrimento e requer que examinemos de perto os preconceitos que mantêm nossa visão de mundo e perpetuam nossos problemas. Embora o sucesso pareça ser a fonte dos bons momentos na vida, a felicidade aí incluída, ele não é o objetivo da prática espiritual. Nossas idéias sobre o sucesso são baseadas em preconceitos e também fazem parte de um ciclo que se perpetua, impedindo-nos de atingir a felicidade e o sucesso genuínos que buscamos.
A tradição budista encara os preconceitos sobre o sucesso com oito diagnósticos diferenciais chamados de “as oito preocupações mundanas”, oito orientações para a busca da felicidade baseadas em suposições não investigadas. A fixação nestas preocupações subverte nossos melhores esforços, conduzindo-nos a um falso sucesso ou uma real frustração. 
As oito preocupações mundanas consistem de quatro pares de prioridades:   
 1) buscar aquisições materiais e evitar sua perda;     

2) buscar prazer dirigido pelo estímulo e evitar o desconforto;     

3) buscar elogio e evitar a culpa, e       

4) manter boa reputação e evitar má reputação.
Estas oito preocupações mundanas em geral resumem nossa motivação pela busca da felicidade, e este é exatamente o problema. Essas preocupações, que não são erradas em si, sustentam nossa motivação, e é a motivação, mais que qualquer outro fator, que determina o resultado de nossa prática espiritual.
Não há nada de errado com um carro, uma casa, e a pobreza não é necessariamente uma virtude. Nada de errado em aproveitar um por de sol, um bom livro, uma conversa agradável ou uma bela música. Não é errado ser elogiado, nem ser amado e respeitado pelos outros. Não é errado ser rejeitado pelos outros se você estiver levando uma vida saudável e significativa. 


A verdadeira fonte da felicidade não está no domínio das oito preocupações mundanas. Elas não são fontes de felicidade, nem impedem a felicidade. 
O problema é que quando as encaramos como um meio para a felicidade, a vida torna-se um jogo de dados. Não há garantias. Se você aspira riqueza material, pode não consegui-la, e se conseguir, não há garantias de que seja feliz. Se você aspira ao prazer, quando o estímulo acaba, a satisfação também termina. Não existe felicidade duradoura em correr atrás do prazer. As pessoas respeitadas e famosas tendem a ter os mesmos problemas pessoais que as outras. A deficiência fatal das oito preocupações mundanas é que elas simulam a felicidade como se fosse absoluta, desviam as maneiras de buscar a felicidade, e, ao confundir-nos, nossos esforços para atingir a felicidade absoluta são continuamente solapados.