sábado, 8 de fevereiro de 2014

O poder das palavras


Uma conversa sincera de vida a vida pode suavizar e derreter até corações congelados.

Tenho intensas lembranças de encontros com pessoas cujas vozes e palavras têm me comovido através dos anos. Um deles que me vem à mente aconteceu durante a visita à região de Guilin na China, uma bela terra montanhosa, com neblina e rios.
Caminhando, nos encontramos com duas jovens de 15 ou 16 anos, vendendo ervas medicinais perto de um rio. Elas levavam uma cesta cheia de ervas e convidavam os pedestres com voz vibrante a comprarem suas mercadorias. "Ni hao (olá)" chamei-as. "Ni hao" sorriram: "Oferecemos qualquer tipo de medicina. Escolham as que quiserem".
 Sorri pelo bom humor delas e perguntei: "Tem algo para deixar-me mais inteligente?" Ficaram surpresas, mas só por um instante: "sinto muito, acabamos de vender a última".
 Nosso grupo explodiu em gargalhadas perante essa criativa resposta e sentimos calidez como se uma suave brisa primaveral nos tivesse tocado. Como diz um provérbio chinês: "Até uma simples palavra dita com bondade pode aquecer o coração no pior dos invernos".
Lembro com carinho que minha esposa e eu acabamos comprando ervas como lembrança e as vezes me pergunto como estarão estas garotas e suas famílias. Creio que o diálogo sincero de vida a vida pode suavizar e derreter até os corações congelados. Falar com alguém cara a cara pode mudar a vida dessa pessoa e a vida de si mesmo.
 Hoje em dia vivemos em meio de um dilúvio de informação desalmada. Quanto mais nos apoiamos numa comunicação unidirecional, como o é o rádio ou a televisão ou a comunicação escrita, mais sinto a necessidade de insistir no valor do som da voz humana. A simples, mas preciosa interação de voz a voz, pessoa a pessoa; o intercâmbio de vida a vida. Admiro pessoas como o governador Frivaldo da província de Sorsogon. Disse-me que freqüentemente encontrava-se com sua gente de igual a igual. Comparado com a facilidade de apresentar-se com uma imagem artificialmente polida, fazer este exercício pode parecer tedioso. Mas através dos seus pacientes esforços, entendo que o Sr. Frivaldo tenha podido conquistar um verdadeiro respaldo e confiança.
 Numa conversa cara a cara, o ouvinte pode formular perguntas ou estar em desacordo com seu interlocutor e isto pode provocar nele que pela sua vez reflita sobre seus próprios pontos de vista. O processo é dinâmico e com muitas facetas, criando prazer mútuo e entendimento.
 Da minha parte, me encanta falar com todo tipo de pessoas de todas as partes do mundo. Sempre aprendo algo novo e acho estimulante estar exposto a diferentes maneiras de pensar. Esta é uma maneira de nutrir-se espiritualmente.
 Minha experiência tem sido que não importa quão forte possa ser a incerteza inicial ou a hostilidade que a outra pessoa possa sentir para conosco, se nos aproximamos a ela com completa sinceridade e dizemo-lhe a verdade, esta lhe responderá invariavelmente da mesma maneira.
 Lembro ter mantido um diálogo com representantes do Islã. Uns amigos tentaram convencer-me que seria muito difícil mas senti que não podíamos ter tais preconceitos. Nunca se sabe o que pode ser conquistado antes de experimentar. Sugeri que o diálogo não tinha porque ser sobre a doutrina religiosa. Poderíamos começar falando dos problemas que todos temos como seres humanos, focalizados para a cultura e a educação. Também poderíamos falar do desejo de paz, algo compartilhado pelas pessoas em todo o mundo.
 Uma conversa cara a cara pode parecer muito simples, mas na realidade é a mais poderosa ferramenta que temos para gerar mudanças positivas. Podemos intercambiar idéias num nível muito humano e pessoal com uma base de respeito e fé na bondade essencial do outro.
 Todos somos iguais e não há ninguém superior ou inferior.
 O escritor francês Montaigne amava o diálogo e sempre tinha uma mente aberta. Ele dizia: "Nenhuma posição me surpreende, nenhuma crença me ofende, não importa quão oposta possa ser à minha". Para ele, o diálogo significava a busca da verdade, encontrá-la e abraçá-la sem importar de quem viesse. Como temos dois ouvidos e uma boca só, talvez deveríamos escutar duas vezes mais do que falamos. Certamente se somos rígidos ou preconceituosos ninguém se aproximará a nós com o coração aberto.
 As vezes nossas tentativas para iniciar um diálogo podem ser menosprezadas ou ignoradas. Devemos lembrar que a rejeição e as decepções são inevitáveis na vida e continuar tentando. Manter um diálogo requer de muita paciência e perseverança. Necessitamos desenvolver um forte senso do eu que nos permita ver claramente as emoções da outra pessoa e aproximar-nos com calma mas progressivamente aos seus corações.
 O maior obstáculo para um diálogo frutífero é geralmente o excessivo apego ao próprio ponto de vista. Por exemplo, uma desavença entre um pai e seu filho não pode ser solucionado enquanto o pai vê as coisas como pai e o filho como filho.
 Dentro de um diálogo genuíno é melhor se podemos ver qualquer tipo de confronto como outra forma de comunicar-nos. Se pai e filho podem ver-se a si mesmos compartilhando um objetivo comum, - conquistar uma família unida- as coisas podem mudar surpreendentemente para melhor. Quanto mais elevado for o sentimento que nos une, mais poderemos abraçar os que diferem de nós e assegurar esse diálogo nos levará para uma saída frutífera.
 Tanto se o problema vem de uma só família ou de uma escala internacional, se os que estão envolvidos podem ver as coisas desde uma perspectiva elevada, com um propósito em comum, as engrenagens do diálogo se dirigirão numa direção positiva.
 Se mais pessoas se dedicassem a um diálogo de uma maneira definitivamente aberta, tenho certeza de que os inevitáveis conflitos da vida humana seriam solucionados mais facilmente. Os preconceitos dariam lugar ao entendimento e a guerra à paz. O diálogo genuíno resultará na transformação de pontos de vista opostos, transformando as brechas que separam às pessoas em pontes que as unem.



Daisaku Ikeda é pacifista, escritor, filósofo, fotógrafo e poeta.  Também conhecido como "Embaixador da Paz", é presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), uma ONG, com base budista,   filiada às Nações Unidas, que atua nas áreas da cultura, educação, paz, meio-ambiente, desarmamento nuclear e apoio a refugiados de guerra.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Forjar uma prática de grande avanço



 Ultimamente, tenho falado com pessoas que chegaram a uma parede após mais de 20 anos de prática. A maioria das pessoas poderia pensar que depois de décadas de prática, a vida deveria estar plena de profunda satisfação. Creio que tudo o que experimentamos nos prepara para o passo seguinte; e sempre há um passo seguinte. O sei porque foi depois de 20 anos de prática – depois de ter realizado mudanças enormes na minha vida - que encontrei-me imersa numa tristeza impossível de negar. A tristeza profundamente enraizada que achei ter erradicado, só tinha ficado oculta.
Isso não era o pior; na medida que orava ia chegando mais fundo e me sobressaltou encontrar outro sentimento mais profundo ainda: verdadeira desesperança, uma convicção férrea de que jamais seria feliz ou estaria tranqüila. Agora poderia suportar tudo melhor, poderia me dedicar a uma causa nobre, mas nunca me sentiria realmente bem. Não merecia a felicidade. Achava que minha vida profundamente não era Nam-myoho-rengue-kyo, e sim tristeza.
Como podia ser, depois de tantos anos de prática, de trabalhar de todo coração para ajudar e incentivar aos outros? Para quê tinha praticado durante 20 anos?
Já assistiram esse filme?
Faz pouco voltei a descobrir uma citação de Nitiren Daishonin que creio ajuda a explicar como podemos nos sentir atacados inclusive depois de muitos anos de prática budista. Em “Resposta à mãe de Ueno” (ainda não traduzido ao português) descreve como é usada a madeira melhor e mais forte para construir um pagode, enquanto que a madeira de inferior qualidade é usada para o andaime temporário que é usado durante a construção. “Quando nos preparamos para construir um grande pagode”, escreve Daishonin, “o andaime é de grande importância. Mas uma vez que o pagode está terminado, então retira-se o andaime e dispensa-se. Este é o significado da passagem sobre de ‘descartar honestamente os meios oportunos’. Mesmo que o andaime seja necessário para terminar o pagode, ninguém sonharia jamais com descartar o pagode e venerar o andaime”. (Los Escritos de Nitiren Daishonin, pág. 1074).
Daishonin está explicando que o Sutra de Lótus é o grande pagode e que os outros ensinos constituem o andaime. Creio que podemos fazer uma analogia com a nossa vida: freqüentemente temos levantado um andaime de falsas crenças a respeito de nós mesmos e do mundo. Como sugere Daishonin, num determinado momento podem ter permitido erguer nossa vida. Inclusive a madeira do auto-menosprezo, do medo, da ira ou da arrogância podem ter nos ajudado a sobreviver em certo momento.
Como praticantes, temos construído o grande pagode de Nam-myoho-rengue-kyo na nossa vida; mas, como o demonstra a experiência que divido com vocês, pode ser que ainda estejamos aferrados ao andaime de falsas crenças. No meu caso era a profunda convicção de que nunca mereceria ser feliz.
Encontram alguma destas “madeiras inferiores” na sua vida?
  • Sou diferente de todos os outros. Ninguém me entende.
  • Não mereço triunfar e mesmo que triunfe, algo ruim irá acontecer.
  • As drogas e o álcool são a única maneira de escapar do que sinto.
  • Comer em excesso é a única forma de encher este buraco negro que tenho dentro.
  • Todos os que me rodeiam são (tontos, vingativos, estúpidos, egocêntricos, etc.).
  • As cartas que recebi para jogar não são boas. O melhor que posso esperar é simplesmente sobreviver. Talvez a próxima existência seja melhor.
  • Nunca terei um casamento feliz. Ninguém poderá me amar jamais.
  • Diminuir os outros é a única maneira de sentir-me melhor comigo mesmo.
  • Não importa fazer escolhas ruins referente a relações / dinheiro / o que for porque isso é o que mereço – ou porque essa é a única forma de chamar a atenção.
  • Sou um mal budista
  • Fracassei em tudo. A vida não faz sentido.

Após anos de prática, o pagode de nossa iluminação pode ser grande, mas o andaime que o obscurece tem ficado tanto tempo no seu lugar, que podemos não notá-lo mais. Este andaime que num determinado momento pode inclusive até nos ter protegido, na realidade acaba convertendo-se num prejuízo para a nossa felicidade. Se a iluminação quer dizer despertar ao fato de que somos o Buda, que a vida é incomensurável, então a nossa missão é abrir os olhos a todos os seres com respeito a este fato e vive-lo nós mesmos mediante nossa própria transformação. As crenças negativas profundas encontram-se em direta contradição com a verdade fundamental, iluminada, da vida.
A sabedoria do Gohonzon é que o pagode e o andaime não podem conviver facilmente. Uma vez que o pagode foi construído e o andaime continua em pé, sentimo-nos incomodados, seja vaga ou intensamente. Esse incômodo na realidade é um benefício. Nos diz que temos que refletir. Temos que perguntarmo-nos: “junto com a minha fé no poder da Lei Mística e do meu potencial de buda, ao mesmo tempo tenho uma visão distorcida da realidade mais profunda da minha vida?”. Podemos começar orando para perceber e para descartar este andaime de ilusão para que o grande pagode de nossa vida que temos construído fique visível sem obstruções. Isto exige coragem. Por outro lado, não dar esse passo, não avançar, é não ter benevolência porque quando damos um grande passo à frente, inspiramos a fazer o mesmo a uma quantidade inumerável de pessoas que nos rodeiam.
Se somos sérios a esse respeito, devemos perguntarmo-nos o que estamos dispostos a deixar de fazer. Estamos dispostos a desmanchar o andaime inferior que obscurece nossa vida essencial? Podemos deixar de castigar-nos ou de castigar aos outros? Podemos despertar da anestesia ou da negação?
Quando me dei contra a parede depois de 20 anos de pratica, tomei a decisão consciente de praticar a filosofia de Nitiren Daishonin, não a minha própria. No início, fingi. Li as escrituras de Daishonin “Sobre atingir o estado de Buda nesta vida” e “A torre do tesouro” para lembrar a mim mesma – convencer a mim mesma – de que era um Buda. Não acreditava mas repetia a mim mesma: “Minha vida é Nam-myoho-rengue-kyo. Sou um Buda e, portanto, tenho todo o poder de um Buda. Posso fazer surgir a sabedoria e o poder necessários para mudar meu problema. Serei feliz. Como Bodhisattva da Terra que sou, me corresponde ser feliz. Se me permitir. É a maneira como demonstrarei a veracidade da Lei”.
O presidente Ikeda da SGI tem dito, “Enquanto tiverem coragem, sabedoria e sinceridade, poderão converter tudo e todos em aliados mediante a arte da humanidade” (Pág.3, World Tribune, 30/11/01).
Coragem, sabedoria e sinceridade; estas são precisamente as qualidades que desenvolvemos quando saímos de nós mesmos uma e outra vez para ajudar a outros para praticar, quando desenvolvemos nossa humanidade. É por estes 20 anos de tentar ajudar a outros, que tive a coragem no momento crucial de olhar esta parte obscura do meu ser e que tive a força de converter o que mais me assustava – a crença profunda de nunca poder ser feliz – numa aliada para a minha iluminação.
O maior benefício é que, mediante esta experiência, conheci minha identidade essencial de Buda e que todas as pessoas e todas as situações compartilham esta identidade. E isto afeta todas as relações e todas as situações com as que me defronto. É a antítese da desesperança e da morte. Quer dizer que tudo é possível.
Considerem esta fórmula:
Determinem usar sua situação para converter-se em alguém que não duvida que Nam-myoho-rengue-kyo é o núcleo da sua vida, aconteça o que acontecer.
Orem assim: “como Bodhisattva da Terra, tenho o carma de passar por isto; portanto, tenho a missão de supera-lo e sair vencedor”. Nada iguala o poder da oração do daimoku.
Atuem na prática para os outros e para propagar este Budismo – para cumprir com a sua missão, aquela que só vocês podem cumprir.
Transformem o negativismo e reconheçam cada revés como um simples sucesso, que não é o símbolo da sua vida. Não se deixem vilipendiar pelo que ocorreu no passado. Usem cada situação para fazer surgir mais força, não para retroceder. Desmontem o andaime das crenças negativas.
O presidente Ikeda tem dito: “Uma pessoa pode ter toda a riqueza e os tesouros do mundo; mas desde a perspectiva da realidade última da vida, essas coisas não são mais do que meras ilusões… O mais importante é construir um palácio indestrutível de felicidade dentro de nossa vida… É experimentando obstáculos que podemos saborear a verdadeira alegria. É mediante os esforços que podemos crescer.”
Revelemos e saboreemos nosso grande pagode, nosso palácio da felicidade.
         Matilda Buck - Divisão Feminina da SGI-USA