terça-feira, 6 de julho de 2010

Barulho de Carroça


Certa manhã, meu pai convidou-me a dar um passeio
no bosque e eu aceitei com prazer.

Ele se deteve numa clareira e depois de um pequeno
silêncio me perguntou:

- Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais
alguma coisa?
Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:

- Estou ouvindo um barulho de carroça.

- Isso mesmo, disse meu pai. É uma carroça vazia ...
Perguntei ao meu pai:

- Como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?

- Ora, respondeu meu pai. É muito fácil saber que uma carroça está vazia, por causa do barulho.
Quanto mais vazia a carroça maior é o barulho que faz.

Tornei-me adulto, e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, inoportuna, interrompendo a conversa de todo mundo,
tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai dizendo:

Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Busque a honestidade consigo próprio


Busque a honestidade consigo próprio e perceberá que será, via de regra, honesto com os outros.

O objetivo principal da nossa fé é despertar-nos para a nossa missão de vida. Praticamos vencendo as dificuldades justamente para chegarmos ao estágio de compreensão de que somos bodhisattvas.

Mas pela secularidade de nosso cotidiano, pela correria em busca da sobrevivência e da urgência de se adequar a novos parâmetros sociais, acabamos nos tornando hipócritas [
Vício que consiste em aparentar uma virtude, um sentimento que não se tem.
Fingimento, falsidade
.] em relação a essa questão essencial para nossa vida. E o significado mais adequado aqui, para hipocrisia é “falsa devoção”. Obviamente, e registre-se aqui, esse comportamento tem níveis e situações diferentes de pessoa para pessoa. Vejamos dois exemplos:

Uma pessoa encarregada de palestrar numa atividade, mas que não se prepara de acordo com a realidade e exigência dessa atividade, pode ser considerada hipócrita. Esse comportamento, se percebido, além do mal-estar, induz ao descomprometimento dos novos líderes.

Em outra situação, um participante que também não se prepara com o espírito de aprender, apenas arrasta-se para a atividade, ou, depois dela, apenas observa e critica os defeitos, também pode ser considerado hipócrita. Esse comportamento gera desarmonia e mal-estar.

Em ambas as situações, mesmo que sejam comportamentos involuntários [não planejou deliberadamente que seria assim], o fato de não ter se preparado pode ser considerado “falsa devoção”. Ou seja, não houve esforço condizente, seja em relação à função, à atividade, mas basicamente, não houve esforço em relação às pessoas. Nesse sentido, o espírito de procura, base da prática budista na SGI, foi relegado a um segundo plano e restou um comportamento de pouco valor.

E há três aspectos nisso: (1) Há um limite pessoal que precisa ser orientado minuciosamente por um veterano que enxergue essa deficiência e tenha paciência de “criar esse valor”; (2) Já é veterano, mas tem esse comportamento involuntário, e repete isso com constância como que “anestesiado” pela rotina; ou, (3) O faz consciente, ou seja, sabe que é um comportamento negativo, entende que seria importante mudá-lo, mas não consegue vencer esse cotidiano.

Um como resultado do outro, em sendo hipócritas — pessoas de falsa devoção — é mais do que natural que, mesmo praticando este maravilhoso ensino e tendo o grande mestre que temos, as realizações da vida dessas pessoas tornem-se medíocres [
adj. Que está entre o grande e o pequeno, o bom e o mau: obra medíocre.
S.m. Aquele que é medíocre, aquele que não tem grande valor intelectual.

]. E o significado mais adequado aqui para mediocridade é “sem mérito”.

Tanto “hipocrisia” como “mediocridade”, embora soe pejorativo, podem ser resultados da anestesia geral a que estamos sujeitos diante de tamanho bombardeio de superficialidades da sociedade secular, maculada por filosofias e ideologias que não contemplam a grandiosidade do ser humano. Tanto o Budismo de Nitiren Daishonin como a SGI existem e fazem sentido quando conseguem fazer entender essa realidade humana e mudar esse comportamento.

Foi para prover o entendimento da magnanimidade da vida que Nitiren Daishonin quase foi decapitado, o presidente Makiguti morreu na prisão, e por pouco a vida do presidente Toda não tem o mesmo desfecho. Foi por prover esse entendimento que a Soka Gakkai, sob a liderança do presidente Ikeda, tornou-se a maior e a mais rápida em crescimento da história da humanidade. Por enxergar e “curar” essa artificialidade que a vida adota diante dos problemas, tanto o presidente Toda como o presidente Ikeda imprimiram um ritmo de avanço em que um ano equivale a cem anos no processo de expansão do budismo por meio das atividades da Soka Gakkai.

Portanto, companheiros, conseguir enxergar quando o nosso comportamento é hipócrita, e que, portanto, nossos resultados serão medíocres, é, na verdade, um grande benefício. Se depois disso ainda conseguirmos mudar o comportamento, estaremos de fato, criando, segundo a causa do avanço incondicional pela prática da fé — e esse é o verdadeiro aspecto da Soka Gakkai, a vitória contínua porque é na vitória que está a felicidade. “Quando perdem, as pessoas ficam melancólicas e depressivas. Elas lamentam, ficam tristes e compassivas. É por isso que devemos vencer. A felicidade se encontra na vitória.” (Brasil Seikyo, edição no 1.239, 28 de agosto de 1993, pág. 3.)

Numa ocasião o presidente Ikeda observou aguçadamente essa realidade humana: “O segredo para revitalizar todas as coisas está em quebrar a concha da indolência, na qual tentamos descansar confortavelmente no presente, e prestar atenção, no lugar disso, ao ritmo de mudança que bate interiormente.” (Ibidem, edição no 1.280, 16 de julho de 1994, pág. 5.) “Uma vida sem disciplina é uma vida de auto-indulgência ociosa. Uma vida sem uma vontade disciplinada, no final, provará ser uma vida de fracasso.” (Ibidem, edição no 1.325, 24 de junho de 1995, pág. 3.)

E sobre a hipocrisia, base da derrota, o presidente Ikeda assim se refere: “Uma pessoa que falha em lutar nos momentos cruciais é hipócrita e covarde. O estado de Buda não se manifesta nesse tipo de pessoa; neste caso, só existe o estado de Inferno.” (Ibidem, edição no 1.284, 13 de agosto de 1994, pág. 4.) E para os líderes ele adverte rigorosamente: “E quanto aos dirigentes hipócritas, que tentam aparecer sozinhos enquanto falham em fazer sinceros esforços e sendo dominados por sua própria natureza preguiçosa, pode-se dizer que as causas e os efeitos do inferno já existem em seu coração.” (Ibidem, edição no 1.283, 6 de agosto de 1994, pág. 5.)

Dez forças maléficas


Na “Carta a Bendo no Ama Gozen” (Gosho Zenshu,pág. 1.224.), Nitiren Daishonin diz que o Demônio do Sexto Céu irá se utilizar das juugun (“dez forças”) para tentar afastar os seguidores do Verdadeiro Budismo, ou seja, os membros da Soka Gakkai. A forma para nos precavermos contra essas “forças” maléficas é sabermos identificá-las prontamente.

1. A primeira delas chama-se yokubou que corresponde aos desejos mundanos. Ela faz as pessoas se apegarem a esses desejos a ponto de se afastarem da prática da fé. “Não vou fazer essa prática porque preciso ganhar dinheiro e para mim isso é o mais importante” — por meio de pensamentos desse tipo é que age essa força, obstruindo a prática.

2. A segunda é ushuu. Ela provoca nas pessoas um forte desânimo, sem que exista uma causa aparente para isso. Essas pessoas são tomadas por pensamentos como: “Antes recitava de duas a três horas de Daimoku, mas agora sequer tenho vontade de recitar cinco minutos.” São dominadas por um sentimento melancólico e acabam por cessar por completo a prática.

3. A terceira é kikatsu. É uma força que age sobre o corpo das pessoas causando dores, incômodos ou deficiências, impedindo-as de recitar o Daimoku ou de participarem das atividades.

4. A quarta é katsuai. É uma força que age sobre as pessoas mais próximas ou de maior influência, como a mãe, a esposa, o marido ou os filhos que se opõem insistentemente à prática da fé.

5. A quinta é suimin. Pode ser interpretada como o sono, mas não é somente como aquele que surge no momento da oração. O objetivo do Demônio do Sexto Céu é afastar o seguidor do Sutra de Lótus da prática da fé ou eliminá-lo de vez. Então, essa força age causando, por exemplo, a exaustão, o esgotamento físico, a necessidade de dormir mais ou simplesmente a desatenção para provocar a morte dos praticantes. Podemos dizer que as mortes causadas por descuidos ou pela desatenção são ações dessa força. É por esse motivo que o presidente Ikeda sempre orienta para tomarmos o máximo de cuidado com a falta de descanso e a exaustão.

6. A sexta é fui. É o medo. Influenciada por essa força, apesar de saber que é necessário lutar contra as maldades, a pessoa não tem coragem para isso. Tenta então fugir do confronto dizendo: “Ah, até quando vai continuar essa briga entre a Gakkai e o clero? Detesto brigas, por isso não quero fazer parte desse Movimento Renascença.” Outro exemplo é em relação a Nikken. Nikken é um inimigo da Lei. Então ele deve ser combatido veementemente, correto? Só que essas forças agem fazendo com que as pessoas pensem: “Ah, pobre Nikken. Ele também é um ser humano. Vamos reatar nossa amizade.” É como, por exemplo, um tumor que surge no corpo. Você irá conviver com ele porque ele faz parte de você? Se não combatê-lo, é certo que será destruído por ele. Num momento crucial, em que é absolutamente necessário lutar, essa força age para impedir-nos.

7. A sétima é guike. Ela age como a dúvida, penetrando no coração das pessoas por meio de pensamentos como: “Atualmente estou achando as orientações da Gakkai muito estranhas...”, criando suspeitas em relação ao caminho correto.

8. A oitava é shinni. É representada pela ira ou pela revolta. Por exemplo, ela age da seguinte maneira: Todos sabemos que devemos seguir a Lei e não as pessoas. Mas, tomadas por essas forças, algumas acabam se afastando da Gakkai devido à discordância com os dirigentes. Essa força também pode se manifestar na forma da inveja. Surgem na mente das pessoas pensamentos do tipo: “Tenho mais tempo de prática que fulano, mas ele foi nomeado para uma função acima da minha. Isso é injusto. Não vou mais praticar essa religião!”

9. A nona é riyou koshou. Ela age sobre as pessoas mais veteranas. São pessoas que ficam presas às glórias do passado e se esquecem de lutar no presente. “No passado, realizei cem Chakubuku! Fui discípulo do presidente Toda! Hoje, as coisas estão ‘meio estranhas’ por isso não pratico mais. Antigamente — ah, antigamente — tudo era maravilhoso, por isso eu lutei”, assim se vangloriam. Só falam do passado e criticam o modo como as atividades são conduzidas no presente. Diz-se que das dez forças, essa pode ser considerada uma das mais perigosas.

10. E a décima é jikou betsujin. É a arrogância. As pessoas dominadas por essa força colocam-se num pedestal e menosprezam as demais. Fazem as outras acreditarem que somente elas têm razão e não aceitam conselhos de ninguém.

Essas são as “dez forças”, ou seja, juugun, as últimas armas do Demônio do Sexto Céu para a batalha contra os seguidores do Sutra de Lótus. Elas agem no coração dos praticantes do Verdadeiro Budismo.