quinta-feira, 4 de junho de 2009

Iluminação é a transformação do âmago da vida


No Ocidente, o Buda é confundido muitas vezes com a concepção cristã do deus absoluto. Por esse motivo, existem pessoas que não conseguem acalentar a convicção de que são capazes de alcançar a condição de Buda. Vamos esclarecer, então, a visão da iluminação segundo o Budismo de Nitiren Daishonin.
A iluminação é a transformação do âmago da vida. É a transformação da vida maculada pela ilusão fundamental por meio da crença de que a Lei Mística é inerente ao ser humano. Essa ilusão fundamental é a causa principal da infelicidade e dos sofrimentos.
Com a força dessa crença, é possível transformar a ilusão fundamental e envolver a vida com o poder ilimitado da Lei Mística, integrando nela a sabedoria dessa Lei. É justamente essa transformação que possibilita a manifestação da grandiosa vida do Buda no interior do ser humano.
Na explanação do escrito “Abertura dos Olhos”, publicada na revista Daibyakurengue, edição de novembro de 2005, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, comenta: “A origem de toda a infelicidade encontra-se na ilusão fundamental. Essa ilusão impede as pessoas de entenderem a Lei Mística como força básica do Universo e de sua própria vida. Não permite também que as pessoas acreditem na Lei Mística mesmo que alguém a ensine. A percepção do Buda transforma essa ilusão em sabedoria. Não é eliminar os desejos mundanos. Quando a ilusão é quebrada pela força da fé, a sabedoria emerge para transformar os desejos mundanos em iluminação”.
O potencial que transforma imediatamente a ilusão em sabedoria chama-se natureza de Buda. Essa natureza está originalmente dotada em todas as vidas.
Nitiren Daishonin denominou essa natureza de Buda inata na vida de todas as pessoas de Nam-myoho-rengue-kyo. Sua crença e sua prática transformam a escuridão em luz, os desejos mundanos em iluminação e estabelecem o caminho para a felicidade absoluta, isto é, a vida do Buda repleta de benefícios. Esta é a essência do Budismo Nitiren.
Desde a fundação de seu budismo, Daishonin avançou pelo caminho da propagação da Lei Mística com a convicção de que a sua recitação é fundamental para a salvação da humanidade.
O que devemos considerar nessa questão é que o estado de Buda emerge como efeito da luta interna que quebra a ilusão fundamental por meio da fé. Por essa razão, Daishonin dá ênfase à prática da recitação, advertindo que o Nam-myoho-rengue-kyo não deve ser considerado como uma Lei existente fora das pessoas. Caso contrário, não será mais Lei Mística.
“Da ilusão para a fé — esta mudança no âmago da vida é o ponto essencial do Budismo Nitiren. Quando cada pessoa estabelecer solidamente essa fé em seu coração, a natureza de Buda inata na vida será estimulada e se evidenciará como uma vigorosa energia vital. Ao contrário, a descrença fará com que a natureza de Buda fique inerte e a vida será envolta instantaneamente pela ilusão fundamental.”
Essa transformação não significa alcançar o estado de deus absoluto, nem um buda sob a concepção cristã de santo ou Deus. O budismo não expõe a personificação de deus absoluto, mas uma lei universal e fundamental que sustenta todos os seres viventes e todos os fenômenos do Universo. Essa lei é chamada de Lei Mística.
Nessa mesma explanação, o presidente Ikeda explica essa questão com um exemplo de fácil compreensão: “Por exemplo, quando espessas nuvens impedem a passagem da luz, a Terra permanece escura. Porém, quando as nuvens se dispersam e permitem a passagem da luz, a Terra fica clara imediatamente. Embora não tivesse ocorrido nenhuma mudança propriamente na Terra, ela emergiu da escuridão e tornou-se uma terra de esperança.
“Num escrito consta: ‘Uma pequena luz pode iluminar imediatamente um local que permaneceu na escuridão por milhões de anos.’ (Gosho Zenshu, pág. 1.403.) Conforme essa frase, uma luz pode dissipar a escuridão de uma caverna independentemente do tempo que ficara no escuro. Essa é a força de plantar a semente da Lei Mística”.
Se acender o fogo na escuridão fundamental, a escuridão desaparecerá instantaneamente. É uma transformação imediata. Este é o Budismo da Semeadura de Nitiren Daishonin.
O mundo escuro sem sabedoria transformando-se num mundo radiante e iluminado pelo sol da sabedoria — eis a mudança que é chamada de iluminação. Com a ascensão do sol, o mundo escuro torna-se claro e radiante. É a mudança para um mundo rico e colorido. O mundo em si não mudou em nada. A única diferença está em receber ou não os raios solares. Neste caso, o sol equivale à Lei Mística e seus raios são como luz da sabedoria. O mundo na escuridão é comparável à situação da vida envolta na ilusão fundamental.
No mundo dominado pela ilusão, os diversos tipos de desejos mundanos agem como obstáculos que impedem as ações da vida. Porém, quando a luz da sabedoria penetra nesse mundo, esses mesmos desejos mundanos deixam de agir como obstáculos. Um mesmo mundo, quando iluminado pela luz da sabedoria, transforma-se num mundo radiante, rico e livre onde não há qualquer obstáculo a atrapalhar as ações da vida.
A força ilimitada da Lei Mística surge na nossa vida no momento necessário e na intensidade necessária. Surge como um potencial para superar as ondas bravias do mundo real.
Podemos citar como exemplo a força da perseverança, a coragem diante de dificuldades, a sabedoria para vencer os impasses, força de concentração, serenidade. O sentimento de pensar no bem-estar dos outros é também uma manifestação da Lei Mística. E o budismo prega também a libertação dos sofrimentos da velhice e da morte. Todas essas mudanças são benefícios que se obtêm quando se transforma a ilusão fundamental em sabedoria.
Por meio da luta para transformar a ilusão fundamental é possível forjar a própria vida e obter a condição indestrutível de felicidade tal como a de um Buda. Isto se chama iluminação na presente existência.

Você pode mudar o mundo


A história nos mostra muitos exemplos de homens e mulheres que mudaram o mundo, como Martin Luther King, Gandhi e Florence Nightingale. Devido a suas fantásticas realizações, essas personalidades passam uma imagem de grandeza e talento especial. Mas, quando conhecemos a trajetória de sua vida, percebemos que elas também possuíam defeitos e passaram por experiências comuns a todos os seres humanos e que, num determinado momento da vida, tomaram uma decisão e fizeram a diferença para sua época.
A verdade é que não é preciso ter um talento incomum para ser um agente transformador que contribui de forma significativa para mudar uma situação pessoal, organizacional e social.
Observando esses líderes mundiais e os princípios que os guiaram, verificamos que possuem algumas características que podem ser desenvolvidas por qualquer pessoa.
Qual o primeiro passo para efetivamente promover uma mudança? O Budismo de Nitiren Daishonin explica a inter-relação da pessoa e seu ambiente. O ambiente familiar e social são reflexos da condição de vida de uma pessoa e não é algo separado dela. Então, para mudar algo externamente, é preciso, antes de tudo, mudar a si mesmo.
Uma história que circula na internet ilustra essa questão: Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava decidido a encontrar a solução para eles. Ele passava todos os dias no laboratório, buscando as respostas para suas questões. Até que certo dia, seu filho de sete anos entrou no laboratório "decidido" a ajudá-lo em seu trabalho. O pai tentou, em vão, fazê-lo brincar em outro lugar. Desesperado, o cientista começou a procurar algo que distraísse o filho e ele pudesse voltar a trabalhar. Ele viu a ilustração de um mapa-múndi em uma revista e teve uma idéia. Recortou o mapa em vários pedaços e deu ao filho para que ele montasse o quebra-cabeças e "consertasse o mundo". Ele ficou tranqüilo, achando que o filho não conseguiria montar o quebra-cabeças. Mas, para sua surpresa, algumas horas depois, o menino trouxe o mapa totalmente montado. Quando perguntou ao filho como havia conseguido a proeza, ele respondeu que não sabia como era o mundo e, por isso, não conseguia consertá-lo. Todavia, viu que na parte de trás do mapa havia a figura de um homem e começou a recompô-la e conseqüentemente, recompôs o mundo também.
Além da percepção e persistência demonstradas pelo menino, um conjunto de fatores são fundamentais para gerar mudanças, como:
Ter uma filosofia de vida - A filosofia de vida de uma pessoa refletirá no modo como ela reagirá diante dos acontecimentos. Por isso, ter uma base filosófica, um alicerce que incuta esperança, coragem e autoconfiança, é essencial na vida de uma pessoa.
Se uma pessoa não tem convicção em seus valores morais, e não consegue discernir o certo do errado, não terá forças para sustentar sua opinião em um momento decisivo e fazer o que é correto para si e para os outros.
Possuir propósitos elevados - Ter um propósito maior que o liberte do egoísmo. Colocar em primeiro lugar as necessidades da coletividade e não as suas próprias (justiça, um ideal, a concretização da paz mundial).
Amar as pessoas - O Budismo Nitiren crê que todas as pessoas possuem inerentemente a natureza de Buda. Assim, promove o respeito incondicional ao ser humano, transcendendo diferenças sociais, culturais e raciais.
Ter empatia - O que motivou Nitiren Daishonin a estabelecer seu ensino há 750 anos? A sua empatia com o sofrimento humano. Esse é o espírito de um bodhisattva, ou seja, de alguém que leva esperança e ajuda todas as pessoas a tornarem-se felizes.
Ter discernimento - Saber agir no momento certo de forma apropriada. Em uma situação conflitante, algumas vezes é preciso recuar e esperar uma melhor oportunidade para ter o resultado esperado. Se a época atual não é favorável para um empreendimento, deve-se preparar o terreno para criar as condições apropriadas no futuro. Não buscar reconhecimento - Não agir pensando em receber algo em troca. O importante não é receber aplausos e reconhecimento por seus feitos, mas ter a satisfação pessoal de saber que suas ações geraram resultados positivos na vida de outras pessoas.
Ter sonhos - Não ficar preso aos acontecimentos do passado, mas ter uma visão otimista e grandiosa do futuro. As pessoas que não têm capacidade de sonhar e não acreditam na concretização de seus sonhos sempre estarão limitando seu potencial criativo e de realização.
Dar o exemplo - O famoso ditado que diz "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço" se aplica bem a essa situação. As pessoas têm a tendência de apontar os erros dos outros e não perceber que suas palavras também não condizem com suas ações. Por exemplo, falar da importância do meio ambiente e jogar lixo na rua; falar sobre humanismo e não demonstrar consideração pelas pessoas em geral; bradar pela justiça e cometer pequenas injustiças no dia-a-dia. Mais importante que palavras bonitas são as ações coerentes das pessoas.
Dar o melhor de si - Focalizar a sua própria ação e não a de outras pessoas. Quem se esforça e se dedica, dando o melhor de si, conquista a confiança e o respeito das pessoas.
Assumir a responsabilidade - O segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, dizia que não se pode realizar uma grande luta se estiver pensando em receber a ajuda de outras pessoas. O espírito de levantar-se só é a essência da vitória. É mais cômodo esperar que outros resolvam os problemas. Muitas vezes, é preciso que um acontecimento afete diretamente a vida de uma pessoa para que ela se posicione e tome uma atitude. Pessoas que fazem a diferença não mantêm uma postura indiferente e apática diante de injustiças ou dos sofrimentos alheios. Elas tomam para si a responsabilidade de fazer algo para mudar o rumo dos acontecimentos. Todos esses pontos sempre são destacados na filosofia budista e, por isso, fazem da Soka Gakkai uma fonte de valores humanos. Na organização, existem inúmeros relatos de heróis anônimos que, motivados pelas palavras de Daishonin - "se iluminar o caminho para os outros, estará também iluminando seu próprio caminho" - tornam-se o eixo de harmonia para seus familiares e a comunidade em que vivem.
Quando se acredita no valor de uma pessoa e se faz o máximo para que ela seja feliz, infalivelmente ela corresponderá a esse sentimento. E a alegria resultante dos esforços empreendidos cria mais valores positivos e desencadeia um crescente desenvolvimento que irá transformar uma vida, uma família, um país e o mundo. Tudo depende da decisão e da ação de uma única pessoa.
A crença incondicional no ilimitado potencial de cada ser humano é o que move os esforços na SGI até os dias de hoje. Em outras palavras, seus esforços partem da premissa de que, enquanto existir confiança na capacidade humana para manifestar o bem e buscar a felicidade, sempre haverá meios para superar quaisquer impasses.
"Quando alguém está se afogando, não basta ficar ao seu lado e dizer que 'alguém deveria pular e salvá-lo'. A história necessita de pessoas que agem, não daquelas que apenas dizem o que os outros deveriam fazer.
Uma outra maneira importante de atuação social pró-ativa, e que muitas vezes passa despercebida, é a própria postura e atuação de cada indivíduo em seu dia-a-dia. Sem se dar conta, a todo momento as pessoas se relacionam com outras ao seu redor, ora influenciando ora sendo influenciadas, tanto positiva quanto negativamente. Queira ou não, cada pessoa tem um papel e uma parcela de responsabilidade no contexto das relações humanas em sua família, círculo de amizades, trabalho, escola, comunidade ou sociedade. Atuar passiva ou ativamente, de maneira benéfica ou prejudicial, determina o direcionamento que se dá à própria vida, além de influir na dos que estão ao redor.
Cultivar virtudes e buscar o próprio aperfeiçoamento, enquanto se auxilia outros nesse caminho, criando laços de confiança e respeito - esse comportamento estabelece a base para ações concretas em prol da sociedade. O auto-aprimoramento é o primeiro passo que desencadeia esse processo, uma vez que toda transformação positiva e duradoura que se queira processar no ambiente externo só é possível com a mudança na consciência e atitude dos indivíduos envolvidos. Em torno desse eixo, crescimento individual e bem-estar coletivo tornam-se duas faces do mesmo processo de desenvolvimento social.Essa abordagem encontra ressonância nos princípios da filosofia budista e, por conseqüência, nos ideais da SGI, conforme expressa a seguinte passagem do preâmbulo da Carta da Soka Gakkai Internacional: "Acreditamos que o Budismo de Nitiren Daishonin, filosofia humanística de infinito respeito pela dignidade da vida e de benevolência que abrange tudo, capacita os indivíduos a cultivar a sabedoria e a criatividade do espírito humano para vencer as dificuldades e crises que a humanidade enfrenta, dando origem a uma sociedade de coexistência próspera e pacífica."
Atuar pela construção de um mundo melhor não significa necessariamente abrir mão de projetos individuais ou opções de vida, mas usufruir da possibilidade de direcionar as atribuições diárias também para o bem-estar de todos, encarando atividades diárias como trabalho e estudo sob um prisma diferente e conferindo-lhes um novo significado. Em última análise, essa é uma opção que cabe a cada um e que, para atingir os objetivos descritos anteriormente, deve partir de uma escolha espontânea e livre de quaisquer outros interesses. Que tal? Pronto para mudar o mundo?

Transformando o carma


O conceito de carma é certamente um dos pilares fundamentais de toda a doutrina budista. É tão importante para a compreensão de certos aspectos filosóficos que seu uso já extrapolou os próprios budistas, sendo normalmente empregado por não-budistas e até mesmo não-religiosos.
A idéia de carma (do sânscrito karma ou karmam, significando “ação”), ou de que tudo é regido por causas e efeitos, bem como a concepção de que a vida passa pelo infinito ciclo de nascimento e morte, na verdade são anteriores ao surgimento do budismo, fazendo parte de diversas filosofias originárias da Índia e região. Entretanto, a partir do advento do budismo, esses conceitos foram reinterpretados, fornecendo então uma nova visão de vida às pessoas.
O carma pode ser classificado de diversas formas. Causas positivas ou negativas geram o efeito correspondente. Além disso, os efeitos desse carma dependerão do tipo de ações executadas (pensamentos, palavras ou ações), da força da intenção relativa a essas ações e do objeto ou da pessoa aos quais elas foram direcionadas.
Uma outra forma de classificação do carma diz respeito à mutabilidade. Geralmente, acredita-se que as causas mais leves criam o carma mutável, enquanto que as mais graves geram o imutável. No caso do carma mutável, não existe um momento específico para que surjam seus efeitos, os quais também não são fixos. A maioria das ações das pessoas enquadra-se nesse tipo de carma. Já o carma imutável é causado por atitudes extremamente graves ou excepcionalmente boas. Normalmente mostra seus efeitos em um momento específico, seja na existência presente seja nas futuras. O ato de caluniar a Lei enquadra-se nessa espécie de carma. Como um dos efeitos do carma imutável, cita-se a duração da existência de uma pessoa.
O carma mutável pode ser modificado por meio da melhoria no comportamento diário, mas o imutável só pode ser transformado pela prática budista. Isso ocorre porque normalmente ao tentar escapar dos efeitos do mau carma, as pessoas criam novas causas negativas, permanecendo em um ciclo de sofrimento e causas negativas. A denominação “carma imutável” provém do fato de que, embora possam ser realizadas causas positivas, esse tipo de carma não pode ser mudado fundamentalmente, sendo necessário sofrer seus efeitos. Entretanto, ao se realizar a prática budista, é possível evidenciar uma energia, determinação e sabedoria de tal forma que se contraponha ao efeito gerado, fazendo com que a vida da pessoa seja fortalecida e ela acabe superando o efeito negativo.
Na escritura de Nitiren Daishonin “A Transformação do Carma Determinado” consta a seguinte frase: “De maneira semelhante, o carma pode ser dividido em duas categorias: determinado (mutável) e indeterminado (imutável). Devido ao fato de que até mesmo o carma determinado pode ser erradicado por meio do completo e genuíno arrependimento, é desnecessário dizer que o carma indeterminado pode também ser totalmente transformado.” (END, vol. 1, pág. 215.) O Sutra Fuguen declara: “O mar de todos os obstáculos cármicos surge das ilusões. Se deseja arrepender-se de seus maus atos, sente-se ereto e medite sobre a verdadeira entidade da vida. Então, todas as suas ofensas se desvanecerão como gotas de orvalho sob a luz do sol.”
Cabe ressaltar que os termos “ser totalmente transformado” ou “dissipar-se” não se referem à idéia de que uma pessoa não sofrerá os efeitos do carma, mas que ela poderá transformá-lo. O sincero arrependimento (correspondente ao princípio budista de zangue) surge quando se enfrenta grandes dificuldades e se compreende que elas decorrem do próprio carma negativo. A frase “sente-se ereto e medite sobre a verdadeira entidade da vida” indica o ato de recitar o Daimoku. Disso entende-se que, por mais que hajam causas positivas, não é possível amenizar o carma se não houver um arrependimento sincero pelas causas negativas. Essa questão ultrapassa amplamente a atitude de simplesmente nutrir algum sentimento de culpa pelas causas passadas e se aprofunda no sentido de compreender perfeitamente a natureza dos sofrimentos e realizar a prática adequada para que seus efeitos não desviem a pessoa do correto caminho rumo à felicidade absoluta. Pelo contrário, os ensinos budistas postulam que se deve fazer dos sofrimentos causas para o próprio desenvolvimento. Este é o princípio de hendoku iyaku, ou seja, “transformar o veneno em remédio”.
Em outra escritura, “Amenizar o Efeito Cármico”, o Buda Original afirma: “O Sutra do Nirvana ensina o princípio de tenju kyoju, que significa ‘amenizar o efeito cármico’. Se o mau carma do passado de uma pessoa não é expiado nesta existência, ela deverá passar pelos sofrimentos do Inferno no futuro. Mas, se experimentar extremas privações nesta existência por causa do Sutra de Lótus, os sofrimentos do Inferno dissipar-se-ão instantaneamente. Quando morrer, obterá os benefícios da Alegria e Tranqüilidade, assim como os dos Três Veículos e os do Supremo Veículo.” (END, vol. 1, pág. 233.)
Na frase do Sutra Fuguen anteriormente citada, o termo “sol da sabedoria iluminada” refere-se ao Nam-myoho-rengue-kyo. Em outras palavras, indica o estado de Buda latente na vida de uma pessoa no nível da nona consciência. Ao realizarmos a prática budista com máxima sinceridade e fé, ativamos esse nível fundamental de consciência, que pode transformar o carma acumulado no nível anterior da consciência alaya, bem como influenciar positivamente a ação das demais consciências. Assim, conforme indica o princípio de amenizar o efeito cármico, podemos experimentar os efeitos do carma imutável de maneira mais branda e erradicá-lo mais brevemente do que o faríamos sem a prática budista.

Mudar a nós mesmos para mudar nosso ambiente



O sutra Vimalakirti declara que, quando se busca a condição de absoluta liberdade do Buda na mente dos mortais comuns, descobrirá que eles são entidades da iluminação, e que os sofrimentos do nascimento e da morte são nirvana. Também afirma que se a mente das pessoas é impura, sua terra será igualmente impura. Mas se sua mente é pura, assim será sua terra. Portanto, não há duas terras, pura e impura ao mesmo tempo. A diferença reside unicamente na mente boa ou má das pessoas. Isso se aplica tanto aos budas como aos mortais comuns. Quando uma pessoa é dominada pela ilusão, é chamada de mortal comum, mas quando iluminada, é chamada de Buda. Isso se assemelha a um espelho embaçado que brilhará como uma jóia quando for polido. A mente que se encontra encoberta pela ilusão da escuridão inata da vida é como um espelho embaçado, mas quando for polida, é certo que se tornará como um espelho límpido, refletindo a natureza essencial dos fenômenos e da realidade. Manifeste uma profunda fé polindo diligentemente seu espelho dia e noite. Como deve poli-lo? Não há outra forma senão devotar-se à recitação do Nam-myoho-rengue-kyo. (Os Escritos de Nitiren Daishonin [END], vol. I, págs. 3-4.)
Conforme já exposto em detalhes, a totalidade do budismo existe dentro de nós. A chave para atingir o estado de Buda — a transformação fundamental de nossa condição de vida — também se encontra na mudança em nosso coração e em nossa mente.
Para transmitir esse ponto, Daishonin cita o sutra Vimalakirti, e o sintetiza da seguinte forma: “Quando se busca a condição de absoluta liberdade do Buda na mente dos mortais comuns, descobrirá que eles são entidades da iluminação, e que os sofrimentos do nascimento e da morte são nirvana”. (END, vol. I, pág. 3.)
A frase “Os mortais comuns... são entidades da iluminação” significa que a sabedoria para atingir o estado de Buda (iluminação) manifesta-se na vida das pessoas comuns, repleta de desejos mundanos. De maneira semelhante, a declaração “os sofrimentos do nascimento e da morte são nirvana” significa que a condição de verdadeira paz e tranqüilidade (nirvana), própria do estado de Buda, manifesta-se na vida das pessoas comuns atormentadas pelos sofrimentos do nascimento e da morte. Nesses trechos, Daishonin explica que os budas e as pessoas comuns não estão separados. A única diferença entre eles se encontra na “mente das pessoas comuns”.
Daishonin também cita uma passagem do sutra Vimalakirti que explica a diferença entre uma terra pura e outra impura. Ele a resume da seguinte forma: “Se a mente das pessoas é impura, sua terra será igualmente impura. Mas se sua mente é pura, assim será sua terra”. Ele esclarece que não existem duas terras separadas; a única distinção entre os lugares puros e impuros está na “mente boa ou má das pessoas”. Nesse sentido, a terra pura não existe em algum lugar fora ou separado, mas no mundo real, e é construída a partir da mudança das pessoas que nela vivem. Esta é uma visão prática e dinâmica de uma terra pura, com base na idéia da “purificação das terras do Buda” exposta no Sutra de Lótus (The Lotus Sutra [LS], cap. 4, pág. 81).
A passagem do sutra Vimalakirti citada por Daishonin pertence ao 5º capítulo, “Indagações sobre a doença”. Esse capítulo descreve o diálogo entre Vimalakirti, um seguidor leigo budista de qualidades notáveis, que praticava o Caminho do Bodhisattva e se encontrava doente, e Manjushri, um dos principais discípulos de Sakyamuni, que tinha ido visitá-lo. Quando perguntado sobre a causa de sua doença, Vimalakirti responde: “Porque todos os seres adoecem, eu adoeço”. Esta é uma passagem muito conhecida que revela de forma concisa o espírito fundamental do bodhisattva de compartilhar o sofrimento dos demais como se fosse o seu próprio.
Vimalakirti diz ainda que os bodhisattvas escolhem nascer junto às pessoas atormentadas pela ilusão, bem como compartilhar seus sofrimentos de nascimento e morte para instruí-las e conduzi-las à iluminação. Por outro lado, os bodhisattvas nunca se deixam influenciar ou se abater pelos sofrimentos por terem estabelecido um puro estado de iluminação interior.
Dessa forma, as passagens do sutra Vimalakirti citadas por Daishonin esclarecem o significado do estado de Buda e da terra pura do ponto de vista daquele que pratica o Caminho do Bodhisattva e se dedica em meio à realidade da vida diária. Por essa razão, Daishonin conclui: “Quando uma pessoa é dominada pela ilusão, é chamada de mortal comum, mas quando iluminada, é chamada de Buda”. (END, vol. I, pág. 4.) Em outras palavras, a diferença entre as pessoas comuns e os budas nada mais é que a diferença entre a ilusão e a iluminação na mente das pessoas comuns. Como então converter essa ilusão em iluminação?
Na passagem anterior, Daishonin explica que, quando o coração das pessoas muda, a terra ou o ambiente externo também se transforma. O que ocorre no aspecto mais profundo é a mudança da ilusão para a iluminação.
Conforme já expus anteriormente, o que possibilita essa transformação é o Daimoku e, no nível espiritual, a fé. De forma mais simples, mediante a fé podemos superar a ignorância ou escuridão que constitui a raiz da ilusão e manifestar o estado de Buda do qual sempre fomos dotados.
Daishonin vale-se de uma metáfora para descrever esse potencial para a mudança. Ele diz: “Isso se assemelha a um espelho embaçado que brilhará como uma jóia quando for polido”. (END, vol. I, pág. 4.) Desse modo, ele ensina que a recitação do Daimoku é o meio para vencer nossa escuridão interior e para “polir” nossa vida.
Todos os seres vivos são entidades da Lei Mística, por possuírem-na inerentemente. Nosso estado de Buda intrínseco nos permite extrair o poder da Lei Mística que existe em nós, de forma livre e irrestrita, sempre que precisarmos. Daishonin compara esse estado de vida supremo com um espelho límpido que reluz como uma jóia. Contudo, mesmo sendo uma entidade da Lei Mística, não podemos evidenciar o poder da Lei se nossa vida estiver encoberta pela ignorância. Nesse estado de escuridão e impureza, somos como um “espelho embaçado” que não reflete nada. A recitação do Daimoku é a prática para polir o espelho embaçado de nossa vida.

Como transformar um Carma determinado


As doenças podem ser classificadas basicamente em dois tipos: leves e graves. Visto que o tratamento feito a tempo por um hábil médico pode trazer a recuperação mesmo para um caso de doença grave, certamente é possível curar as doenças leves. De maneira semelhante, o carma pode ser dividido em duas categorias: determinado e indeterminado. Devido ao fato de que até mesmo o carma determinado pode ser erradicado com um completo e genuíno arrependimento, é desnecessário dizer que o carma indeterminado pode também ser totalmente transformado. As Escrituras de Nitiren Daishonin [END], vol. 1, pág. 215
A frase citada é um trecho da carta que Nitiren Daishonin escreveu para Myojo, esposa de Toki Jonin, quando ela passava por constantes problemas de saúde. Toki Jonin foi um discípulo de Daishonin e um vassalo que serviu ao governo de Kamakura. Após perder o marido, Myojo casou-se com Toki Jonin e trouxe seu filho consigo. Ela teve um outro filho desse segundo casamento. Seus dois filhos tornaram-se mais tarde discípulos de Daishonin e devotaram-se ao sacerdócio.
Nitiren Daishonin preocupava-se sempre com o bem-estar de seus discípulos. Quando era informado de que alguém estava doente ou passando por infortúnios, procurava enviar cartas de incentivos e de orientações sobre a prática da fé.
Nessa mesma carta, Daishonin escreveu: “Este sutra é o excelente remédio para as doenças de todas as pessoas do mundo.” Em essência, ele ensina que o Sutra de Lótus é o remédio mais eficaz para os sofrimentos das pessoas dos Últimos Dias da Lei. Ele assegura a Myojo que poderá vencer definitivamente a doença e prolongar sua vida por meio da fé na Lei Mística.
Daishonin escreve até mesmo sobre sua própria experiência: “Quando eu, Nitiren, orei por minha mãe, não somente sua doença foi curada, mas ela foi capaz de viver por mais quatro anos. A senhora também é mulher e agora adoeceu. Portanto, é o momento de embasar sua fé no Sutra de Lótus e aprender que benefícios este lhe trará.” (END, vol. 1, pág. 215.)
Além de contar esse relato para enfatizar o grande benefício da Lei Mística e o poder da fé e da prática, ele oferece conselhos específicos a Myojo sugerindo que ela procurasse Shijo Kingo, um outro discípulo seu, que era um excelente médico.
Por essas considerações, é um erro pensar que, devido à prática do budismo, não é necessário buscar auxílio médico. Esse modo de pensar é errado e pode levar ao fanatismo. A prática do budismo deve fundamentar-se sempre na razão. Portanto, é natural buscar e seguir as instruções dos médicos para o tratamento de doenças, ao mesmo tempo em que devemos fortalecer a prática da fé. Esta aumentará o poder de cura inerente em nosso corpo como também possibilitará a transformação das causas fundamentais da doença que existem nas profundezas de nossa vida. A Lei Mística é o grande remédio benéfico que cura não somente os males físicos, mas os “males da vida”, que se manifestam como infortúnios pessoais e familiares.
Envolta pela grande benevolência de Nitiren Daishonin, Myojo conseguiu curar a doença e prolongar a vida por mais de vinte anos. E ela continuou a praticar resolutamente por toda a vida, mesmo após o falecimento de Daishonin.
De toda forma, não devemos nos desanimar diante de uma doença ou de um infortúnio. Pelo contrário, devemos encarar como uma boa oportunidade para demonstrar a prova real do poder da Lei Mística como o excelente remédio para todos os tipos de sofrimentos.
Na escritura “Resposta ao Lorde Ueno”, Daishonin externa a preocupação com um membro da família de Nanjo Tokimitsu: “É verdade que há alguém doente em sua família? Se é verdade, não pode ser a ação das maldades. As Jurasetsunyo devem estar testando a força de sua fé. ” (Ibidem, pág. 419.)
As Jurasetsunyo são as dez filhas de Kishimojin. Nos ensinos pré-Sutra de Lótus, elas são citadas como funções malignas. Contudo, no Sutra de Lótus, consta que foram capazes de atingir a iluminação por meio da prática do bem. São, portando, consideradas como funções budistas que protegem os devotos do Sutra de Lótus.
A vida diária é uma constante batalha para romper a inércia. Não importando o que aconteça, não devemos cair no pessimismo. De uma perspectiva mais profunda, cada problema é um teste para avaliar nossa fé e nossa convicção e é o ponto crucial que decide a felicidade.
Por essa razão, Daishonin nos adverte nessa mesma escritura: “Atualmente, existem pessoas que têm fé no Sutra de Lótus. Entretanto, algumas crêem como chamas ardentes, enquanto outras como água corrente. Quando as primeiras ouvem sobre o budismo, entusiasmam-se como o fogo, mas quando se afastam, são dominadas pela mente disposta a abandonar a fé. Como ‘água corrente’ significa crer continuamente sem nunca retroceder.” Portanto, haja o que houver em nossa vida diária, o mais importante é a continuidade na prática da fé. O ideal seria manter a fé ardente como a chama e contínua como a água corrente.
Na escritura “Resposta a Kyo'o”, Nitiren Daishonin incentiva o casal Shijo Kingo e Nitiguennyo com relação à doença de sua filha Kyo'o: “Creia no Gohonzon com todo seu coração. O Nam-myoho-rengue-kyo é como o rugido de um leão. Que doença pode, portanto, ser um obstáculo?”
Daishonin faz uma analogia entre o Nam-myoho-rengue-kyo e o rugido do leão para nos ensinar o poder ilimitado da fé e assim vencer todas as adversidades. O leão é o rei dos animais. Quando ele ruge, todos os outros animais são intimidados. Da mesma forma, quando recitamos a Lei Mística com forte determinação, todos os problemas são vencidos. A “doença” citada na frase, além de referir-se à indisposição física, pode ser entendida como qualquer frustração ou dificuldade resultante da pobreza, do desemprego, dos conflitos de relacionamento humano etc. Todos os problemas são trampolins para a conquista da felicidade. Entretanto, Daishonin nos adverte: “Mas tudo depende de sua fé. Uma espada será inútil nas mãos de um covarde. A poderosa espada do Sutra de Lótus deve ser manejada por alguém corajoso na fé. Então será tão forte quanto um demônio armado com um cajado de ferro.”