domingo, 31 de maio de 2009

Os cinco tipos de visões


O budismo ensina que existem cinco tipos de visão:


(1) Visão das pessoas comuns que enxergam apenas aquilo que é visível;


(2) Visão dos seres celestiais que enxergam tudo independentemente da distância, seja no claro ou no escuro;


(3) Visão da inteligência das pessoas nos dois veículos;


(4) Visão da Lei dos bodhisattvas; e


(5) Visão do Buda que percebe a verdade universal.


A maneira como as pessoas encaram os fatos da vida, além de ser uma conseqüência imediata do estado de vida, revela também a tendência básica da vida que provém de causas acumuladas desde o passado. Aqui está a importância da prática do budismo para mudar o carma e elevar o estado de vida para se capacitar a enxergar os inúmeros ensinamentos nos caracteres do Sutra de Lótus, e a ver como douradas as palavras do Buda Sakyamuni.
“Torne-se mestre de sua mente e jamais permita que sua mente seja seu mestre” — esta é uma famosa frase do Sutra dos Seis Paramitas. “Torne-se mestre de sua mente” significa conduzir a vida com base nas regras e concepções corretas, mantendo perfeito controle sobre os sentimentos. E “jamais permita que sua mente seja seu mestre” indica não ser arrastado meramente pelo sentimentalismo. Muitas vezes, diante de uma situação qualquer, nossa mente até pode dizer que estamos certos do ponto de vista de mortal comum, mas podemos estar agindo erradamente sob a luz da concepção correta da vida. Quando continuarmos conduzindo a vida apenas com base no sentimentalismo, isto é, fazendo com que a nossa mente seja o mestre que conduz nossa vida, não seremos capazes de solucionar os problemas e ficamos mais atolados ainda nos sofrimentos.
Quando procuramos vencer a nossa fraqueza interior e agimos para fortalecer nossa determinação, independentemente da natureza de nossos problemas, conseguiremos elevar as condições de vida e abrir um novo horizonte no dia-a-dia.
A verdadeira liberdade não é viver sozinho a bel-prazer, embora aparentemente possa parecer uma boa condição. É na verdade uma situação em que uma pessoa corre o risco de se perder na vida sendo facilmente influenciada pelas circunstâncias negativas.
Dedicar-se em prol do cumprimento da missão de servir ao Kossen-rufu sem ficarmos apegados apenas à felicidade e às satisfações pessoais é o supremo caminho para conquistar a verdadeira liberdade em nossa vida, livrando-nos dos grilhões do sentimentalismo e das dificuldades.
Devemos viver sempre com base na Lei Mística, comprometendo-nos com os propósitos da SGI que propaga o Budismo Nitiren para toda a humanidade.

Escuridão fundamental e iluminação


“Quando uma pessoa é dominada pela escuridão, é chamada de mortal comum, mas quando iluminada, é chamada de Buda. Isso se assemelha a um espelho embaçado que brilhará como uma jóia quando for polido. A mente que se encontra encoberta pela ilusão da escuridão inata da vida é como um espelho embaçado, mas quando for polida, é certo que se tornará como um espelho límpido, refletindo a natureza essencial dos fenômenos e da realidade. Manifeste uma profunda fé polindo seu espelho dia e noite. Como deve poli-lo? Não há outra forma senão devotar-se à recitação do Nam-myoho-rengue-kyo.” (“Sobre atingir o estado de Buda nesta existência”, Os Escritos de Nitiren Daishonin, vol. I, pág. 4.)
Esta frase do Buda Nitiren Daishonin (1222– 1282) revela que todas as pessoas, assim como tudo no Universo, possuem inerente a escuridão e a iluminação, o potencial para o mal e para o bem, para a infelicidade e a felicidade, para a destruição e a criação, ou seja, abrigam na própria vida a causa dos sofrimentos e a chave para sua solução.
Na vida de todo ser humano, a cada instante, processa-se uma batalha entre a escuridão fundamental e a iluminação. Que lado irá vencer? Isso dependerá da condição de vida predominante da pessoa, os chamados Dez Mundos ou Dez Estados da Vida (Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranqüilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhisattva e Buda).


Escuridão fundamental



Também conhecida como ignorância fundamental, é a ilusão mais profundamente arraigada na vida que origina todas as demais ilusões e desejos.
“Escuridão” significa cegueira em relação à verdade, particularmente, à verdadeira natureza da própria vida. O termo “escuridão fundamental” (gampon no mumyo, em japonês) é usado em contraste à iluminação fundamental ou a natureza de Buda inata (gampon no hossho). De acordo com o sutra Shrimala, a escuridão fundamental é a ilusão mais difícil de ser vencida e só pode ser erradicada por meio da sabedoria do Buda. É isso o que quer dizer a frase final do escrito de Daishonin: “Manifeste uma profunda fé polindo seu espelho dia e noite. Como deve poli-lo? Não há outra forma senão devotar-se à recitação do Nam-myoho-rengue-kyo.”


Como a escuridão fundamental se manifesta na vida das pessoas?



Como o breu da noite ou como uma espessa névoa que vai tomando conta de tudo, impedindo as pessoas de discernir formas e cores, assim é a escuridão fundamental da vida. Uma vez manifesta, vai agindo sorrateira e sutilmente e, sem que a pessoa perceba, já está completamente envolvida por ela, tornando-se incapaz de enxergar e reconhecer a verdade ou a essência de tudo que a cerca. Obscuras e tenebrosas também são suas diversas manifestações, como a violência, a corrupção, o autoritarismo, a traição, a discriminação, entre outras.
Essa escuridão inata impede que a verdadeira natureza da existência seja reconhecida. É literalmente a ilusão sobre a natureza da própria vida, bem como a fonte fundamental de todas as demais ilusões. Ignorante da natureza de sua própria existência, a pessoa tomada pela escuridão também ignora a natureza da vida das demais.
É por essa razão que atos bárbaros são praticados no mundo inteiro e, de certa forma, com o “consentimento” da maioria das pessoas. As guerras são um exemplo. O que justifica a matança de vários seres humanos nesses conflitos? Por mais razões que sejam apresentadas (políticas, econômicas, ideológicas), nada justifica tirar a vida de alguém. Porém, em várias partes do mundo as guerras continuam a eclodir.
A humanidade não está satisfeita com o estado do mundo atual. Um sentimento de futilidade e desespero lança uma sombra escura sobre ela e a sociedade.
Daisaku Ikeda destaca os seguintes pontos a respeito da decadência do ser humano e do mundo em decorrência da ação da escuridão ou ilusão fundamental:
“Enquanto o homem progride tecnologicamente, os padrões de moralidade humana tendem a declinar. A causa desse declínio tem sido a tola ilusão de que o poder conquistado pelo progresso tecnológico pode substituir os altos padrões morais. Romper com essa ilusão deve ser o ponto de partida do esforço para solucionar o dilema com que hoje o homem se debate, um dilema que ele mesmo criou.”
“Os políticos fazem do poder sua divindade onisciente e onipresente, que eles exaltam à custa do sacrifício do povo. E economistas, encantados pelo mágico poder do capital, explorando cruelmente os fracos, desceram ao nível daquilo que eles próprios chamam de ‘animais econômicos’. Em outras palavras, a civilização afastou-se da humanidade — de seu ponto de partida — e pessoas engajadas em muitos ramos tornaram-se desumanas e bestiais com o resultado de que, em vez de contribuírem para a felicidade das massas, os efeitos das atividades culturais anulam os seres humanos e os levam à perda do conceito de que nossa civilização deveria ser pelo e para o povo.
“É a excessiva boa vontade em escutar o apelo dos diversos desejos físicos e permitir que prevaleçam que está no âmago da fissura entre a moderna humanidade e sua civilização. Os inegáveis esplendores materiais que a nossa civilização gerou, em resposta às solicitações dos desejos, deverão um dia empalidecer e assemelharem-se a fantasmas, pois são construídos sobre o sacrifício da natureza, em favor da humanidade, sobre o outro em favor de si próprio e de um futuro melhor em favor do presente. Ademais, a imagem da verdadeira felicidade mental e espiritual humana está envolvida e escondida nela pela neblina do desejo e, assim escondida, está sendo erodida. Para os escravos do desejo, a felicidade é como o arco-íris sempre fora de alcance.
“Certamente, os desejos são parte da natureza humana, mas não toda ela. A rendição completa a esses desejos faz com que percamos de vista os nossos aspectos mais nobres. Os desejos podem consumir os seres como se fossem chamas. Aprender a controlá-los, de forma sábia, e preservar a nobreza de nossa humanidade, é o ponto de partida dos elementos da cultura espiritual, como a ética, a moralidade, a filosofia e a religião.
“Na sociedade moderna, entretanto, muitas pessoas tendem a considerar tais coisas como conceitos vazios e optam por uma liberalidade que leva a loucos excessos de permissividade.”
Esse panorama não tem mudado muito desde os tempos antigos. Ao longo da história, nações se aniquilaram em disputas e guerras, tudo para saciar o desejo por riquezas materiais. Porém, na mesma proporção que obtinham a prosperidade material, o espírito de seu povo empobrecia.
Daisaku Ikeda alerta para o inevitável colapso do mundo, caso não haja uma profunda mudança, uma reação das pessoas para dissipar a escuridão fundamental de sua própria vida. Ele diz: “Se mentes espiritualmente empobrecidas utilizarem as imensas forças físicas de destruição de que dispomos atualmente, o colapso da civilização moderna poderia significar o aniquilamento da humanidade. Nossa crise absolutamente não é o fogo do outro lado do rio. O mundo inteiro é um depósito de munições. E evitar o desejo de detoná-lo e colocar um ponto final na maré de decadência espiritual que avança rapidamente são missões para todos os seres humanos. É por isso que nunca devemos fraquejar em nosso anseio pela criação de uma cultura de paz absoluta.”
Em outras palavras, Ikeda propõe tratar a questão combatendo o mal pela raiz. Era esse também o pensamento do segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda. Em sua famosa “Declaração pela Abolição das Armas Nucleares”, proferida em 8 de setembro de 1957, ele deixou a seguinte mensagem: “Mesmo que neste momento esteja sendo realizado no mundo inteiro um movimento para abolir os testes nucleares, meu desejo é atacar o problema pela raiz, ou seja, cortar as garras ocultas exatamente na origem. (...) Digo isso porque nós, cidadãos do mundo, temos o direito inviolável à vida. Todo indivíduo que tentar colocar esse direito em perigo merece ser chamado de criatura diabólica, um ser abominável, um monstro. Mesmo que um país conquiste o mundo por meio do emprego de armas nucleares, o conquistador deverá ser considerado um demônio, a expressão suprema do mal. Creio que a missão de cada membro da Divisão dos Jovens do Japão é difundir essa idéia em todo o mundo.”4
Por “atacar o problema pela raiz” ou “cortar as garras ocultas exatamente na origem” ele quis dizer que a solução da questão não era propriamente a destruição de todas as armas nucleares. O que realmente deveria ser combatido era o mal gerador dessas armas, ou seja, a escuridão fundamental sob a forma da ganância alojada no coração e na mente das pessoas. Somente assim, Toda acreditava que poderia “banir a miséria da face da Terra”.


Avareza, ira e estupidez — os principais alimentos da escuridão fundamental



A vida possui os chamados três venenos (sandoku, em japonês) inerentes, que são a origem de todos os sofrimentos. São eles: a avareza, a ira e a estupidez. Sandoku também é comumente traduzido como “ganância, ódio e ignorância”. O Daitido Ron (Tratado sobre o Sutra da Grande Perfeição da Sabedoria), obra de Nagarjuna e base do pensamento Mahayana, classifica os três venenos como a fonte de todas as ilusões e desejos mundanos, e são assim chamados porque turvam, poluem e corrompem a vida das pessoas. Por essa razão, são os alimentos ou nutrientes principais da escuridão ou ilusão fundamental.
Ainda segundo interpretações budistas, afirma-se que os três venenos sejam as causas subjacentes de três calamidades que submetem o ser humano a condições de existências extremamente indignas. A avareza ou ganância é o que está por trás da destruição das fontes naturais e da poluição do meio ambiente, que conduz à fome e à pobreza. A ira ou o ódio é a causa da violência física, das guerras e dos conflitos. Quanto à estupidez ou ignorância (que significa estar cego para as conseqüências das próprias ações) provoca pestes, epidemias ou doenças.
Portanto, se a humanidade quiser combater os efeitos dos três venenos, precisará de um antídoto e, da mesma forma que na natureza, o principal componente desse antídoto é o próprio veneno. Segundo os ensinamentos budistas, os “desejos mundanos são a própria iluminação” e a escuridão fundamental e a iluminação ou estado de Buda integram uma mesma entidade. Dessa forma, é preciso direcionar esses desejos para o bem, lançando luz sobre a escuridão.

Seja mestre de sua própria mente



“O coração é o que importa” (The Writings of Nichiren Daishonin [WND], vol. I, pág. 1000), declara Nitiren Daishonin. Nossa mente ou nosso coração é realmente prodigioso e inescrutável. Podemos expandir e aprofundar o domínio de nosso espírito de forma ilimitada. O coração pode experimentar uma alegria infinita, uma sensação de liberdade absoluta, como um vôo pelo imenso céu azul. Ele pode envolver com calor e benevolência todos os que sofrem, como a luz brilhante do Sol, que a tudo ilumina.
O coração pode, muitas vezes, estremecer de ira justificada e vencer o mal como um leão justiceiro. De fato, nossa mente ou coração muda a cada instante, como a paisagem vista quando estamos em movimento ou como as cenas de uma peça teatral. No entanto, nada é mais surpreendente que sua capacidade de manifestar o estado de Buda. Mesmo as pessoas oprimidas pelo sofrimento e a ilusão podem fazer surgir das profundezas da vida o estado de Buda e experimentar a unicidade com o Universo. Esse comovente drama de transformação é o maior prodígio do ser humano. O budismo afirma que todas as pessoas possuem a suprema nobreza e o potencial para essa grande e profunda mudança. Em ”Sobre atingir o estado de Buda nesta existência”, Daishonin conclui que, quando aprimoramos nossa vida recitando o Myoho-rengue-kyo, podemos evidenciar nosso estado de Buda, por mais envolvidos que estejamos por nossas ilusões, e converter a terra mais impura numa terra pura. Myoho-rengue-kyo é o nome da “verdade mística que sempre existiu inerentemente em todos os seres vivos” (Os Escritos de Nitiren Daishonin [END], vol. I, pág. 1). Conseqüentemente, com a recitação do Nam-myoho-rengue-kyo podemos revelar nosso estado de Buda, ou seja, polir o “espelho embaçado” de uma “mente que se encontra encoberta pela ilusão da escuridão inata da vida” e transformá-lo num “espelho límpido, que reflete a natureza essencial dos fenômenos e da realidade” (cf. END, vol. I, pág. 4). Em outras palavras, manifestando a verdade mística que reside em nós, podemos ativar nosso infinito potencial interior. O estado de Buda é uma condição de vida idêntica ao Myoho-rengue-kyo, a verdade mística primordial. Esse estado de vida supremo também é chamado de Nam-myoho-rengue-kyo. A passagem que analisarei desta vez explica a relação entre Myoho-rengue-kyo e a mente ou o coração dos seres vivos, em termos dos elementos myo, ho, rengue e kyo. Esta explicação pode servir para descrever de que maneira nossa vida se funde com o Myoho-rengue-kyo e manifesta o estado de Buda. Consideremos, então, o profundo significado desta passagem.


A mente é a entidade mística do Caminho do Meio, que representa a realidade fundamental



Logo no início, Daishonin diz que myo, de Myoho-rengue-kyo, significa a natureza mística de nossa vida, a cada instante. Para descrever essa natureza prodigiosa e insondável, ele utiliza os conceitos da existência e não-existência. Nossa mente se encontra num fluxo constante; muda como a maré, num vai-e-vem de incontáveis pensamentos e emoções. Daishonin diz: “Quando observamos nossa própria mente em qualquer momento, não percebemos cor nem forma para comprovar sua existência. No entanto, não podemos dizer que ela não existe pelo fato de incessantes pensamentos nos ocorrer. A mente não pode ser considerada como algo existente nem inexistente. A vida é, de fato, uma realidade que transcende tanto as palavras como os conceitos de existência e inexistência. Ela não é existência nem inexistência, no entanto mostra características de ambas”. (END, vol. I, pág. 4.) Daishonin descreve a forma mística que a mente adota chamando-a de “entidade mística do Caminho do Meio, ou seja, a realidade fundamental” (END, vol. I, pág. 4). O Caminho do Meio não se refere simplesmente a um ponto médio entre dois extremos, mas a uma perspectiva mais elevada que não se deixa oscilar, por abarcar ambos. Sakyamuni estabeleceu uma sólida filosofia e uma prática transcendente às duas posturas extremas dominantes em sua época: o hedonismo e o ascetismo. Ele as chamou de “Caminho do Meio”. Em “Sobre atingir o estado de Buda nesta existência”, Daishonin diz que a verdade suprema, que transcende os dois extremos da existência e não-existência e, ao mesmo tempo, manifesta ambos, é o Caminho do Meio e, como isso constitui o epítome da verdade, também a chama de “realidade fundamental”. Transcender a existência e a não-existência também pode significar transcender os fenômenos transitórios que se alternam sem cessar entre existência e não-existência. Além disso, o fato de exibir as características de ambas e, ao mesmo tempo, transcendê-las não diz respeito a um ser absoluto ou transcendental, separado dos fenômenos transitórios, mas indica a verdade eterna que incorpora os fenômenos impermanentes. Embora neste escrito Daishonin explique a natureza mística de nossa vida ou mente em termos de conceitos de existência e não-existência, o que ele diz nesses trechos é similar ao conceito da não-substancialidade, postulado por Nagarjuna,1 e aos conceitos da unificação das três verdades2 e da contemplação tríplice numa única mente, expostos por Tient’ai.3 Em essência, a “entidade mística do Caminho do Meio, ou seja, a realidade fundamental” mencionada por Daishonin, refere-se à nossa vida ou mente, que é una com a realidade fundamental — um conceito que pode ser expresso de diversas formas: não-substancialidade, unificação das três verdades ou contemplação tríplice numa única mente.




Rengue refere-se ao princípio da simultaneidade de causa e efeito



Daishonin declara a seguir que ho, “Lei” ou “fenômeno”, é o nome dado às manifestações da natureza mística de nossa vida ou mente — um termo que também é expresso como “mente prodigiosa” ou “mente de myo”. A “mente de myo” é a própria Lei Mística. O termo “Lei Mística” não pode ser aplicado a palavras e teorias abstratas, mesmo que se trate de conceitos como a não-substancialidade ou a unificação das três verdades. A Lei Mística somente pode ser propagada como guia ou bússola e como ensino ou Lei (ho) para as pessoas seguirem quando expressa na mais elevada sabedoria humana fundamentada no Caminho do Meio. Daishonin ainda afirma: “Rengue, que significa flor de lótus, simboliza as maravilhas da Lei” (END, vol. I, págs. 4–5). A Lei Mística é invisível aos olhos humanos. Por isso, o Buda vale-se de uma metáfora para ajudar as pessoas a compreender a natureza prodigiosa e mística da Lei. Esse é o significado de rengue, “flor de lótus”. Por que ele emprega a flor de lótus como analogia? Normalmente, as plantas dão primeiro flores e depois, os frutos. Essa relação costuma ser usada para ilustrar a causalidade linear ou seqüencial, em que as flores representam a causa e os frutos, o efeito. No budismo, essa relação é chamada de “não-simultaneidade de causa e efeito”. Em contraste, no caso da flor de lótus, suas pétalas e seu receptáculo (que contém o fruto) se abrem ao mesmo tempo. Em outras palavras, o fruto é produzido no mesmo instante em que a flor desabrocha. Por essa razão, o lótus simboliza o princípio da simultaneidade de causa e efeito. Os ensinos provisórios, pré-Sutra de Lótus, não expunham que a causa para atingir o estado de Buda é inerente à vida de todas as pessoas. Em vez disso, ensinavam que somente se podia atingir o estado de vida de um buda depois de incontáveis aeons de dedicação à prática budista. Neste caso, a causa e o efeito não são simultâneos. Porém, os ensinos do Sutra de Lótus esclarecem que todas as pessoas estão dotadas do estado de Buda e que podem revelá-lo instantaneamente. Em outras palavras, a mente de uma pessoa comum, sujeita a ilusões enganosas, pode se transformar instantaneamente numa mente de myo (a iluminação suprema) de um buda. A flor de lótus simboliza essa simultaneidade de causa e efeito.



Manter a mente de myo é o kyo místico



Daishonin explica que kyo, de Myoho-rengue-kyo, significa “sutra” e refere-se à compreensão da natureza mística da vida. Ele afirma: “Se compreendermos que nossa vida neste momento é myo, então também compreenderemos que nossa vida em outros momentos é a Lei Mística” (END, vol. I, pág. 5). Kyo é escrito com um ideograma chinês que representa os fios verticais de um tear ou de um tecido; também é empregado para descrever a passagem do tempo. É nesse sentido que Daishonin fala de nossa vida ou mente “neste momento” e de nossa vida ou mente “em outros momentos”. Nossa vida ou mente está sempre mudando, mas quando vencemos nossa escuridão ou ignorância fundamental com a recitação de Daimoku com firme fé, a verdade mística inata se manifesta em nós, e a vida de Myoho-rengue (literalmente, o lótus da Lei Mística) floresce em nosso coração. Dia após dia, por meio da prática da recitação do Daimoku, podemos acumular as causas e os efeitos para atingir o estado de Buda, que nos permite transformar a mente encoberta pela escuridão inata na mente que reflete a natureza essencial dos fenômenos e o verdadeiro aspecto da realidade (cf. END, vol. I, pág. 4). As virtudes dessas causas e efeitos tornam-se, ao longo do tempo, a medula e o esqueleto de nosso ser, e nossa vida e personalidade são adornadas com as flores de inúmeros benefícios. Este é o kyo místico em termos de nossa vida individual. Podemos também considerar o kyo místico como a propagação da Lei Mística de nós para outras pessoas. Se considerarmos que nossa vida “neste momento” é a mente ou a vida do Buda, e que nossa vida “em outros momentos” é a mente de todos os seres vivos, então kyo se refere aos ensinos do Buda, que expõem aspectos de sua iluminação no tocante à natureza mística da vida, ou seja, à mente de myo. O rei dos sutras, que esclarece diretamente o coração ou mente de myo, é o Sutra de Lótus, cuja essência é Myoho-rengue-kyo. Nesse sentido, poderíamos dizer que o kyo místico corresponde ao desenvolvimento do Kossen-rufu, sustentado pela atuação abnegada das pessoas que propagam a Lei Mística e recitam Nam-myoho-rengue-kyo por sua felicidade e a de seus semelhantes e que ensinam os outros a fazerem o mesmo. Como já vimos, Myoho-rengue-kyo é a Lei inerente à nossa vida. A transformação contínua de nosso coração e nossa mente que se produz com a recitação do Daimoku resulta não só na mudança interior profunda como também na transformação de todo o nosso modo de vida, colocando-nos na rota para atingirmos o estado de Buda nesta existência, e gera um grande movimento em direção ao Kossen-rufu, ou seja, a transformação de toda a humanidade. A força dinâmica da mudança, em todos os níveis, é Myoho-rengue-kyo.



Sejamos o mestre de nossa mente



Como Myoho-rengue-kyo é a Lei inerente à nossa vida, há outro tópico que devo mencionar: a relação entre a mente repleta de ilusão, encoberta pela escuridão inata, e a mente de myo, iluminada pela natureza essencial dos fenômenos e o verdadeiro aspecto da realidade. Se seguimos a mente repleta de ilusão das pessoas comuns, que tende a ser fraca e facilmente influenciada, nosso potencial interior pode definhar em pouco tempo ou, pior, nossa vida pode sucumbir aos impulsos negativos e destrutivos. Este é um problema que provém da sutileza da mente. Pelo fato de a mente ou o coração ser a chave para atingir o estado de Buda nesta existência, não devemos ser derrotados por nossa fraqueza intrínseca. Esse é o propósito da prática budista. A mente das pessoas comuns, sujeita à ilusão, oscila a todo o momento. Por isso, não devemos deixar que essa mente instável seja nosso guia ou mestre. Daishonin ressalta esse ponto nesta famosa passagem: “Torne-se mestre de sua mente, em vez de permitir que ela o domine”. (WND, vol. I, pág. 502.) Trata-se de uma citação do Sutra dos Seis Paramitas, cujo texto original diz: “Nossa mente pode, subitamente, escapar de nosso controle. Por isso, devemos domá-la como se fosse um elefante selvagem, e não permitir que ela se torne nosso mestre. Em vez disso, nós é quem devemos ser seu mestre”.4 O Sutra do Nirvana contém um trecho similar: “Oro para que venha a se tornar mestre de sua mente, em vez de permitir que ela o domine”. (Gosho Zenshu, pág. 152.) Daishonin cita essa advertência muitas vezes e a apresenta como diretriz para todos os seus seguidores. Para nos tornar mestre de nossa mente, precisamos ter uma excelente bússola na vida e um brilhante farol na fé. Não podemos nos permitir governar pela natureza inconstante, fraca e mutável da mente sujeita a ilusões de uma pessoa comum. Para sermos mestres de nossa mente, devemos conduzi-la na direção correta. Dessa forma, o verdadeiro mestre da mente é a Lei e os ensinos do Buda. Sakyamuni proferiu o juramento de que o mestre de sua mente seria a Lei para a qual havia se iluminado; seu orgulho era viver fiel a esse juramento. Esse modo de vida corresponde à frase “procurar refúgio na Lei”, proferida por Sakyamuni como instrução final aos seus discípulos antes de morrer.5 Os sacerdotes das várias escolas budistas, da época de Daishonin, esqueceram-se desse espírito de Sakyamuni. Seguindo seu próprio pensamento ou idéias arbitrárias, perderam de vista os ensinamentos do Buda, denegriram o Sutra de Lótus e sucumbiram à própria arrogância. Em contraste, Nitiren Daishonin ensinou que o verdadeiro mestre da mente é Myoho-rengue-kyo — o coração do Sutra de Lótus e a Lei fundamental de todos os budas —, e estabeleceu a prática concreta da recitação do Nam-myoho-rengue-kyo para dominar a mente. Ele também enfatizava freqüentemente a seus discípulos a postura primordial na fé, o espírito de procura, a cada instante, do verdadeiro mestre da mente: a Lei Mística. Por exemplo, quando um dos irmãos Ikegami6 foi deserdado por seu pai por causa de sua fé, Daishonin encorajou a ambos dizendo-lhes que esse, precisamente, era o momento para se unirem e superar a situação com base na fé. Ele lhes oferece a seguinte orientação: “Uma passagem do Sutra dos Seis Paramitas nos exorta a sermos mestres de nossa mente, em vez de permitirmos que ela nos domine. Seja qual for o problema, considerem-no não mais que um sonho e pensem somente no Sutra de Lótus”. (WND, vol. I, pág. 502.) Por mais difíceis que sejam as circunstâncias que tenhamos de enfrentar, poderemos infalivelmente transformá-las se não vacilarmos na fé. A fé é uma batalha contra nossa própria fraqueza. Daishonin nos ensina que, para triunfar nessa batalha, devemos basear nossa vida com toda a sinceridade no Sutra de Lótus — a Lei Mística —, sem nos deixar influenciar por nossa fraqueza interior.



O caminho de mestre e discípulo fundamentado na Lei



O triunfo que os irmãos Ikegami conquistaram também nos exorta a aprendermos o espírito da inseparabilidade de mestre e discípulo. Estes dois seguidores conseguiram superar a difícil provação, ou seja, enxergar a manipulação de Ryokan, do templo Gokuraku-ji, por trás dos atos de seu pai e, no fim, conquistaram a vitória mais surpreendente — fazer com que seu pai abraçasse a fé — precisamente porque seguiram à risca a orientação dada por Daishonin. Deixarmo-nos dominar por nossa mente é viver de maneira egocêntrica. Em última análise, arrastados a todo momento por nossos pensamentos mutáveis, sucumbimos ao egoísmo e mergulhamos na ignorância e escuridão mais profundas. Do contrário, ser mestre de nossa mente é viver com base na Lei. Mestre, no budismo, é aquele que conduz as pessoas à Lei e as coloca em contato com ela; que lhes ensina que a Lei na qual devem confiar existe dentro de sua própria vida. Os discípulos, por sua vez, buscam o mestre, que incorpora essa Lei em suas ações e vive em unicidade com ela. Os discípulos se empenham na prática budista tendo seu mestre como exemplo e modelo. Seu modo de vida lhes permite ser mestre de sua mente. Em outras palavras, para atingir o estado de Buda nesta existência, é imprescindível ter um mestre que incorpore a Lei e viva totalmente de acordo com ela, e que ensine às pessoas o imenso potencial que possuem. Eu tive um mestre que praticou em exata conformidade com o que o Buda ensinou: o segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, que dedicou sua existência à ampla propagação do Budismo de Nitiren Daishonin na era moderna. Ele fez de mim o que sou hoje. O presidente Toda sempre está ao meu lado, como mestre espiritual. Ainda hoje, dia a dia e minuto a minuto, converso com meu mestre em meu coração. Este é o espírito de inseparabilidade entre mestre e discípulo. Os que têm o mestre como sua bússola e se empenham em conformidade com o que ele ensina são pessoas que vivem com base na Lei. O Budismo de Nitiren Daishonin é um ensino fundamentado na unicidade ou inseparabilidade de mestre e discípulo. Da mesma maneira, o Sutra de Lótus é um ensino de inseparabilidade entre o mestre e seus sucessores. Na última parte deste escrito, para destacar a importância da relação de mestre e discípulo para atingir o estado de Buda nesta existência, Daishonin cita uma passagem do 21º capítulo do Sutra de Lótus, “Os Poderes Místicos do Buda”.7 Deixarei para a próxima ocasião a análise detalhada do significado dessa passagem. Por ora, gostaria de ressaltar que o caminho para atingir o estado de Buda nesta existência se encontra na prática dos Bodhisattvas da Terra que recitam Nam-myoho-rengue-kyo — a Lei inerente à vida — para sua felicidade pessoal e a de seus semelhantes, e ensinam outros a realizar a mesma prática. Antes de mais nada, o grande caminho que nos conduz ao estado de Buda nesta existência encontra-se na prática da fé embasada no espírito de inseparabilidade de mestre e discípulo, na unicidade de nosso coração e o nobre coração do Buda, sem deixarmos nos influenciar pela escuridão inerente nem pelos três venenos da avareza, ira e estupidez. A fé embasada no espírito de mestre e discípulo é a chave para abrir a arca do tesouro que existe em nossa vida, imensurável como o Universo. Em síntese, o empenho corajoso na recitação do Daimoku e nas ações pelo Kossen-rufu é o caminho direto para atingir a iluminação nesta existência.

O mundo visto pelo buda



Qual o propósito da vida? A felicidade. E qual o propósito da religião ou da fé? Deve ser igualmente a felicidade do ser humano.
O que, então, vem a ser a felicidade? Em que consiste uma vida feliz?
Se a felicidade pudesse ser encontrada nos prazeres efêmeros, o mundo estaria transbordando de felicidade. Se a verdadeira felicidade pudesse ser encontrada em uma vida só de entretenimento, então, o mais apropriado seria consagrar-se ao hedonismo. Porém, do ponto de vista da eternidade da vida, por todo o passado, presente e futuro, essa felicidade é uma ilusão e, no final, irá se mostrar inútil e vazia.
O budismo ensina como podemos atingir uma felicidade indestrutível ou, como dizia o presidente Toda, “um estado de vida de felicidade absoluta”.(...)
A frase (do Sutra de Lótus) “Por asamkhya de kalpas, sempre estive no Pico da Águia e em muitos outros lugares” significa literalmente que o Buda se encontra no Sagrado Pico da Águia durante um período inconcebivelmente longo e que também aparece em diversos mundos das dez direções.
Do ponto de vista do Budismo de Nitiren Daishonin, isso indica que o Gohonzon existe somente em nossa vida, em todos os momentos e onde quer que estejamos. O Gohonzon sempre está “junto” a nós e “ao nosso lado”, não se afastando de nós por um instante sequer. Ele está sempre conosco. Por favor, vamos gravar essas palavras no coração.
A partir do próximo verso, “Enquanto os seres presenciam o final de um kalpa...”, temos uma descrição de dois mundos completamente distintos. O verso “Enquanto os seres presenciam o final de um kalpa e tudo é consumido em chamas” descreve um mundo de sofrimento que reflete a condição de vida das pessoas. É, na verdade, um estado infernal de sofrimento e temor. Porém, a partir do verso “Esta minha terra permanece segura e tranqüila”, a cena muda completamente. Observamos aqui, paz e tranqüilidade. Há uma vibrante alegria, uma música cheia de vida e uma rica cultura. Este é o mundo visto pelo Buda com seu vasto estado de vida.
Na realidade, esses dois mundos são unos. As pessoas comuns e o Buda percebem e experimentam o mesmo mundo de formas totalmente distintas.
Nitiren Daishonin disse que essa “grande chama” que as pessoas percebem é o “grande fogo dos desejos mundanos”. (Gosho Zenshu, pág. 757.) Não é o mundo, mas sim sua própria vida que está sendo consumida pelas chamas. E, em face disso, as pessoas tremem de medo.
Por isso, o buda as aconselha, dizendo: “O que têm a temer ou a lamentar? A verdade não é tudo o que estão percebendo!” E lhes diz: “Esta terra onde habito está sempre segura e tranqüila.”
Com essas poucas palavras, o Buda dissipa as ilusões das pessoas e “abre” seu estado de vida superficial e limitado. São palavras de grande benevolência que expressam o desejo do Buda de elevar todas as pessoas, toda a humanidade até a suprema iluminação.
Os ensinos pré-Sutra de Lótus expõem que o Buda e as pessoas comuns vivem em “mundos diferentes”. Explica que as pessoas devem atravessar “este mundo”, o mundo saha, até o “outro mundo”, onde se acredita que o Buda habita, e isso só é possível por meio da prática durante um período de tempo extremamente longo.
Porém, o capítulo Juryo ensina que o Buda expõe eternamente a Lei neste mundo saha, que este mundo é a terra do Buda e que o Buda e as pessoas comuns habitam em um mesmo mundo saha.
Nitiren Daishonin afirma em uma de suas escrituras: “Os espíritos famintos vêem o Rio Ganges como fogo; os seres humanos vêem-no como água; e os seres celestiais como amrita.1 A água, em essência, é a mesma, mas aparece sob formas distintas conforme a condição cármica de cada pessoa.” (The Major Writings of Nichiren Daishonin, vol. 5, pág. 163.)
O que vemos difere conforme nosso estado de vida. Porém, quando nosso estado de vida muda, o “mundo” em que vivemos também se modifica. Este é o princípio supremo de “itinen sanzen real”, segundo o qual um único momento da vida contém os três mil mundos, tal como expressa o Sutra de Lótus.
Nitiren Daishonin disse sobre sua vida de contínuas perseguições: “Dia após dia, mês após mês, ano após ano, fui submetido a repetidas perseguições. As perseguições e hostilidades de conseqüências menores são tão numerosas que sequer as conto. Porém, as principais perseguições foram quatro.” (Ibidem, vol. 2, pág. 114.)
Durante seu exílio na Ilha de Sado — que foi incontestavelmente a perseguição de maior severidade — Nitiren Daishonin proclamou tranqüilamente: “Sinto uma imensurável alegria mesmo estando agora exilado.” (Ibidem, vol. 1, pág. 94.) Dessa condição elevada de vida tão vasta como o Universo, ele observava tudo com imperturbável tranqüilidade.
Tsunessaburo Makiguti, o presidente fundador da Soka Gakkai, suportou a dura vida na prisão porque tinha o seguinte em mente: “Quando penso nos sofrimentos que Daishonin enfrentou na Ilha de Sado, vejo que minhas dificuldades não são nada.” Ele também escreveu em uma carta: “Dependendo de como concebemos os fatos, podemos experimentar alegria mesmo no inferno.”
Um vasto estado de vida é produto de um forte humanismo. Para dar outro exemplo, recordo-me de como o segundo presidente, Jossei Toda, encarou o dia em que teve de cessar as atividades da editora que dirigia devido à crise da época. Descrevi essa cena em meu romance Revolução Humana.
Na época, eu tinha 21 anos. Como redator da revista mensal O Japão dos Meninos, estava tomado pelo entusiasmo. Porém, repentinamente, a publicação da revista foi interrompida. Foi realmente um grande choque, como se estivesse a bordo de um avião detido em pleno vôo.
Porém, quando olhei para o presidente Toda, vi que ele estava entretido em um jogo de shogui2 com um amigo, tranqüilo e imperturbável. Por uns instantes, não consegui entender como ele podia proceder daquela forma num momento tão crítico. Mas, pouco depois, o motivo ficou claro para mim. “Ele está certo. Para ele nada mudou. Seu aspecto é uma declaração de que dará continuidade a sua luta.” A inspiração que essa sua atitude infundiu em mim continua vívida até os dias de hoje.
Por mais violentas que sejam as tormentas do destino que nos assolam, nosso espírito de luta não deve vacilar o mínimo. Nossa fé, ou determinação, não deve absolutamente ser destruída. A frase “esta minha terra permanece segura e tranqüila” descreve esse estado de vida.
Eu sou um discípulo de Jossei Toda. Desde a época em que iniciei minha marcha junto a ele, aos dezenove anos, até os dias de hoje, compus uma história de meio século, suportando sucessivas tempestades e navegando por mares tempestuosos. Dessa forma, desenvolvi a força para resistir a qualquer adversidade sem vacilar o mínimo.
O presidente Toda nos ensinou que a frase “esta minha terra permanece segura e tranqüila” refere-se aos nossos lares, onde o Gohonzon está consagrado; nossos lares, estarão “seguros e tranqüilos” como resultado de nossa prática.
Haja o que houver, não devemos absolutamente ser derrotados. Avancemos orgulhosamente com um nobre estado de vida e com este espírito resoluto: “Sólido é o castelo de meu coração.”

Lei de Causa e Efeito



A vida, repleta de incertezas, muitas vezes nos parece injusta. Alguns sofrem por questões financeiras, outros por doenças ou desarmonia familiar. Almejamos a felicidade, porém, somos surpreendidos por adversidades (desemprego, acidentes, desavenças, entre outros) ou simplesmente nos acostumamos com nossa condição de vida precária. E a tal felicidade parece ser um sonho distante.Sobre este ponto, o presidente Ikeda orienta: “As pessoas da sociedade atual podem ser comparadas a um navio que perdeu a bússola no meio do oceano. Sem um guia correto para dirigi-las, elas navegam sem rumo para o futuro. Ter uma vida feliz — este é o desejo acalentado por toda a humanidade. Esta é a razão pela qual, desde a Antiguidade, as pessoas têm procurado religiões, e várias teorias têm sido expostas como fontes da felicidade. Quantos podem dizer que já se sentem bem-sucedidos em obter uma resposta satisfatória para todas as suas perguntas? Há uma tendência abrangente na sociedade atual, proeminente em especial entre as gerações mais jovens, de desvalorizar a vida humana, incluindo a sua própria. Acredito que essa tendência advém da ignorância da lei de causa e efeito.” (Guia Prático do Budismo, pág. 1.)Quando falamos em causa e efeito, imaginamos uma série de situações do dia-a-dia em que se observa claramente a relação entre a ocorrência do fato e o motivo que o causou. Assim, dizemos, por exemplo, que uma determinada pessoa sofreu um acidente automobilístico devido à alta velocidade com que estava dirigindo; que um estudante passou nos exames por ter estudado as matérias com afinco; que uma inundação foi causada por uma forte chuva; ou ainda, que a causa de um incêndio foi um curto-circuito na instalação elétrica. Mas ocorrem também muitos acontecimentos cujas causas não conseguimos enxergar de forma muito clara. A dificuldade de perceber essas causas torna-se ainda maior especialmente quando se trata de fatos negativos relacionados à própria vida.O Budismo de Nitiren Daishonin esclarece que todas estas questões podem ser observadas sob a luz da rigorosa Lei da Causalidade que permeia todo o universo. Na escritura “Carta de Sado”, Daishonin escreve: “Um indivíduo que escala uma montanha conseqüentemente terá de descer. Uma pessoa que insulta uma outra será desprezada. Alguém que deprecia o belo nascerá feio. Quem rouba o alimento e as roupas de outros nascerá no mundo da fome... Esta é a usual lei de causa e efeito.” (As Escrituras de Nitiren Daishonin [END], vol. 1, pág. 203.)Sob o ponto de vista budista, a lei de causa e efeito é rigorosa e abrange o passado, o presente e o futuro de nossas existências. Produzimos causas boas ou ruins a todo instante, com pensamentos, palavras e ações, ou seja, nossa vida atual é efeito de causas geradas no passado e no presente e, portanto, esses resultados são de nossa única e exclusiva responsabilidade. Na escritura “Abertura dos Olhos” consta a seguinte passagem: “O Sutra Shinjikan afirma: ‘Se deseja compreender as causas que existiram no passado, veja os resultados que são manifestados no presente. E se desejar compreender quais resultados serão manifestados no futuro, olhe as causas que existem no presente.’” (END, vol. 2, pág. 164.)

Um ponto importante ao analisarmos a Lei de Causa e Efeito é que ela reside em nossa própria vida e não em algum outro lugar. Em outras palavras, fazemos as causas que queremos e recebemos os efeitos que merecemos. Por mais que ninguém saiba ou veja o que fazemos, tudo é registrado nas profundezas de nossa vida.O budismo considera não somente esta vida mas também todas as incontáveis existências já vividas desde o infinito passado. Nascemos, vivemos e morremos inúmeras vezes mas, o nosso “eu fundamental” permanece como essência eterna da vida. Para entender os resultados da nossa vida, é importante analisar as causas que geramos constantemente, desde o infinito passado. Para simplificar, de maneira superficial, classifiquemos todas essas causas em positivas e negativas. Figurativamente, colocando as causas negativas num prato da balança e no outro prato as causas positivas, podemos analisar o seguinte:Se o prato de causas positivas pender mais, isto significa que são mais causas positivas do que negativas. Então, desfrutaremos dos efeitos positivos de todas essas causas. Isso não quer dizer que as causas negativas não terão seus efeitos. Se existe a causa, o efeito se manifesta infalivelmente, cedo ou tarde, em algum momento da vida. Mas, como os efeitos positivos são mais abundantes devido ao balanço positivo das causas acumuladas, a vida terá mais felicidade que sofrimentos. Seguindo o mesmo raciocínio, se o prato da balança pender mais para o lado das causas negativas, significa que foram feitas mais causas negativas do que positivas e viveremos uma vida infeliz, arraigada nos numerosos sofrimentos decorrentes dessas causas.Naturalmente, a vida não pode ser equacionada tão simplesmente assim. A dinâmica da vida avança num complexo emaranhado de fatores interdependentes que estabelece o destino ou carma da pessoa. No entanto, o exemplo da balança ilustra a essência do processo pelo qual age a Lei de Causa e Efeito. Portanto, independentemente de nossa atual condição de vida, é imprescindível que a cada dia acumulemos mais e mais causas positivas a fim de construir a verdadeira felicidade.



Uma vez que temos consciência de que tudo que vivemos no presente é resultados de nossas ações do passado, o que devemos fazer? Não podemos ficar numa posição passiva, pois isso não nos levará a lugar algum. Devemos começar a fazer causas positivas que superem as negativas para colhermos resultados positivos no futuro.Na obra Nova Revolução Humana, o presidente Ikeda enfatiza: “O budismo expõe que se uma pessoa comete algum mal contra seu semelhante terá de trilhar o curso da infelicidade como resultado dos atos negativos do passado. Entretanto, este é apenas um aspecto dos ensinos budistas. Se a vida se restringisse apenas a isso, as pessoas teriam de viver em constante insegurança justamente por não conseguirem saber as causas negativas de existências passadas, tendo de carregar inclusive um grande complexo de culpa. Além disso, o destino seria algo previamente delineado e provocaria nas pessoas o desinteresse pela própria vida, tornando-se adeptas de um modo de vida passivo no qual a única preocupação seria a de não cometer nenhum mal. O Budismo de Nitiren Daishonin transcende o limite da concepção superficial de causa e efeito, de castigo e recompensa, e revela a natureza real da causalidade e a forma como recuperar o estado de pureza da vida existente desde o infinito passado. Isso significa que uma pessoa deve viver em prol do Kossen-rufu consciente de sua missão como Bodhissattva da Terra.” (NRH, vol. 1, pág. 197.)O presidente Ikeda também escreveu: “O presidente Toda disse o seguinte: ‘Se nessa fria lei de causa e efeito estivesse encerrado todo o budismo, então teríamos de considerar nosso destino fixo e imutável. Seríamos impelidos a viver passiva e timidamente para não cometermos algum outro ato errôneo. Uma lei superficial não tem nada a ver conosco que vivemos nos Últimos Dias da Lei. Nós necessitamos de uma lei suprema que nos habilite ultrapassar as barreiras das causas e efeitos para evidenciar a natureza de Buda inata em nossa vida. Foi Nitiren Daishonin quem, respondendo a essa necessidade, estabeleceu a Lei para demolir o destino que continua desde existências passadas e assim reconstruí-lo melhor. Isto é, a recitação do Nam-myoho-rengue-kyo é a fórmula da mudança da vida para um destino melhor.’“Nitiren Daishonin reformulou a limitada visão da lei de causa e efeito e elucidou a lei da causalidade mais fundamental que permeia as profundezas da vida humana.(...) “Mesmo que não tenhamos acumulado boa sorte alguma no passado, a partir do momento em que tomamos fé no Gohonzon estaremos dotados da causa e efeito para o estado de Buda. Nesse instante seremos capazes de abrir a porta para um futuro de ilimitada boa sorte. A chave para essa porta é a singular palavra fé.“Numa escritura consta: ‘A lei de causa e efeito é como flores e sementes. Suponhamos que alguém lance fogo em uma área de mil milhas de campo de capim seco. Ainda que a chama seja débil como a luz de um pirilampo, ela instantaneamente consumirá uma porção de capim, duas, dez, cem, mil e dez mil porções mais. Todas as plantas de uma área de dez ou vinte acres serão queimadas em questão de segundos.’ Conforme essa frase, ainda que uma fraca chama seja jogada em um campo de capim seco, o fogo rapidamente se espalhará por toda a área. Da mesma forma, a lei budista da causalidade promete-nos que se a nossa fé brilhar vigorosamente, nunca falharemos em obter o caminho para um grandioso futuro. É como a flor de lótus que floresce apresentando simultaneamente suas sementes. É por essa razão que a lei da flor de lótus é chamada de lei da simultaneidade de causa e efeito. Aqui se assenta a razão pela qual o budismo de Nitiren Daishonin é a mais grandiosa e suprema religião do mundo.” (Guia Prático do Budismo, págs. 4-5.)

Com a prática diária do Budismo de Nitiren Daishonin adquirimos força, coragem e sabedoria para vencer os sofrimentos e abrimos caminhos para viver de forma prazerosa sem as amarras do destino e, ao mesmo tempo, criamos imensuráveis causas que trarão benefícios para a existência presente e para as próximas. A partir do momento em que mudamos a nossa maneira de visualizar a realidade, os obstáculos e os sofrimentos da nossa vida deixam de ser empecilhos e passam a ser oportunidades para o nosso desenvolvimento. Quando nos conscientizamos verdadeiramente disso, administramos nossa vida de forma diferente e o passado deixa de ser o foco de nossas atenções, pois não temos como apagar as causas realizadas, e passamos a fazer causas positivas para superar as negativas. O presente torna-se nosso palco principal, pois, de acordo com o budismo, o que realizamos agora, neste exato momento, definirá todo nosso futuro. Ou seja, quanto mais estivermos conscientes desta rigorosa Lei de Causa e Efeito, nossas atitudes serão mais responsáveis, benevolentes e agiremos com o máximo respeito com a nossa vida e a dos demais. Conseqüentemente, nossas ações criarão causas para um futuro glorioso, livre do medo e da insegurança e poderemos desfrutar uma felicidade indestrutível.Nossa vida, apesar de parecer longa, é muito curta. Se permanecermos indolentes, ela passará instantaneamente como um sonho. Nós podemos vivê-la prazerosa e significativamente ou nos lamentando. Não importa que tipo de vida levemos, a rigorosa Lei de Causa e Efeito se manifestará infalivelmente. Portanto, seja qual for a situação atual, podemos tanto dar uma direção de felicidade como de infelicidade ao curso de nossa vida.O presidente Ikeda escreveu: “A lei da causalidade não reside em algum outro lugar senão em nossa própria vida. É nossa crença no Gohonzon que faz tudo no Universo funcionar como desejamos. Devem estar firmemente convencidos dos ensinos de Daishonin — ‘aqueles que acreditam no Sutra de Lótus reunirão a fortuna de mil milhas distantes’.(...)“Nós abraçamos o Dai-Gohonzon, o supremo objeto de adoração. Nada mais do que um infinito sentimento de gratidão me envolve toda vez que leio a passagem do Sutra de Lótus que diz: ‘Se o senhor deseja arrepender-se, sente-se ereto e visualize a verdadeira entidade da vida. Todos os pecados são como gelo e como as gotas de orvalho que rapidamente se evaporam sob os raios do sol da sabedoria.’ A escritura adverte: ‘Não desperdice sua vida com futilidades, pois se arrependerá por dez mil anos.’ Nitikan Shonin declarou na ‘Explanação sobre o Verdadeiro Objeto de Adoração’: ‘Uma vez que você perder seu corpo humano, será incapaz de recuperá-lo, mesmo que tente por dez mil eternidades. Não desperdice sua vida com futilidades ou se arrependerá por toda a eternidade’.” (Guia Prático do Budismo, págs. 6-8.)Dessa forma, vamos utilizar esta Lei a nosso favor em todos os momentos da vida. Vamos elevar nossa condição de vida por meio da sincera prática da fé, vivendo cada dia com infinita esperança.

Bons amigos e maus amigos



No budismo, uma pessoa que ajuda outra a atingir esse objetivo, ensinando-lhe sobre a prática ou encorajando-a na fé, é chamada de “bom amigo” ou “boa influência” (zentishiki, em japonês). Ao contrário, uma pessoa que impede e desencoraja outra em sua busca da iluminação é chamada de “mau amigo” ou “má influência” (akutishiki).Em suas escrituras, Nitiren Daishonin aplica o termo “bom amigo” de várias maneiras. Em alguns casos ele o usa impessoalmente referindo-se ao Sutra de Lótus ou à Lei Mística. Em outros, ele o emprega com o significado de Buda, que tornou o caminho da iluminação acessível a todos. Porém, o termo é mais comumente utilizado para indicar uma pessoa que encoraja uma outra ao longo da prática da fé.No 27º capítulo do Sutra de Lótus, Myoshogonno (Os feitos anteriores do Rei Adorno Maravilhoso), consta: “Um bom amigo é uma grande causa e circunstância. Em outras palavras, é aquele que ensina e guia outros, capacitando-os a adquirir a sabedoria do Buda e despertando-os para a iluminação.” Na escritura “Três mestres tripitaka oram por chuva”, Daishonin afirma: “Quando se transplanta uma árvore, mesmo que soprem ventos violentos, ela não tombará se tiver uma firme estaca para mantê-la em pé. Porém, mesmo uma árvore que cresceu em um lugar adequado pode cair se suas raízes forem fracas. Uma pessoa fraca não sucumbirá se aqueles que a apóiam forem fortes, mas uma pessoa de considerável força, quando só, poderá tropeçar num terreno irregular. (...)“Portanto, o melhor modo de atingir o estado de Buda é encontrar um zentishiki, ou um bom amigo. Até onde a sabedoria de uma pessoa pode levá-la? Se essa pessoa possui sabedoria suficiente pelo menos para distinguir o quente do frio, deve procurar um bom amigo.“Contudo, encontrar um bom amigo é algo muito difícil. Assim, o Buda comparou esse feito à raridade de uma tartaruga de um olho só achar um tronco de sândalo flutuante com uma cavidade com tamanho certo para comportá-la, ou à dificuldade de puxar uma linha do Céu Brahma e passá-la pelo orifício de uma agulha na Terra. Além do mais, nestes maléficos Últimos Dias, os maus companheiros são mais numerosos do que partículas de pó que compõem a terra, ao passo que a quantidade de bons amigos é menor do que a de grãos de poeira que se consegue amontoar sobre a unha de um dos dedos da mão.” (As Escrituras de Nitiren Daishonin [END], vol. 6, pág. 167.)É uma grande alegria criar laços de amizade com pessoas que nos conduzem à correta prática da fé, incentivando-nos quando estamos desanimados, apontando nossas falhas quando necessário, compartilhando suas experiências e possibilitando-nos enxergar os fatos com uma visão mais ampla. Um dos propósitos de nossa organização é ajudar as pessoas a seguir o correto caminho da prática budista.Por outro lado, um “mau amigo” é aquele que, intencionalmente ou não, dificulta ou então impede a nossa prática. Nitiren Daishonin usou freqüentemente o termo para referir-se aos mestres budistas que, deliberadamente ou por ignorância, distorciam os ensinos budistas e desencaminhavam as pessoas. Um mau amigo também pode ser alguém que concorda conosco mesmo quando estamos errados e não nos alerta.Contudo, fundamentalmente, somos nós que determinamos se uma pessoa é um bom ou um mau amigo, isto é, se ela encoraja ou impede nossa fé. Tomemos como exemplo uma pessoa que nos critica e que faz de tudo para impedir nossa prática budista. Se nos sentirmos desencorajados a ponto de abandonarmos a prática, foi porque permitimos que ela agisse como um mau amigo. Mas se apesar de irados, magoados e entristecidos transformarmos esses sentimentos em um ímpeto para aprofundarmos ainda mais nossa fé no Gohonzon, foi porque enxergamos nessa pessoa um bom amigo.O próprio Nitiren Daishonin demonstrou que isso é uma grande verdade. Ele disse: “Os melhores agentes positivos que ajudaram Nitiren a atingir a iluminação foram Tojo Kaguenobu, os bonzos Ryokan, Doryu e Doamidabutsu, Hei no Saemon e Hojo Tokimune. Sem eles, Nitiren não poderia ser o devoto do Sutra de Lótus.” (END, vol. 1, pág. 171.) O ideal seria considerarmos tudo que nos ocorre, os acontecimentos bons e maus, como um motivo para aprofundarmos a fé, tornando todas as pessoas que se relacionam conosco nossos bons amigos e, o mais importante, procurarmos ser bons amigos para aqueles que nos rodeiam.

Esho Funi - A unicidade da pessoa e seu meio ambiente



A relação entre a vida humana e seu ambiente é explicada em termos de Esho Funi, ou a Unicidade da Vida e seu Ambiente. Esho é a contração dos termos em japonês eho e shoho. Eho indica o ambiente insensível, ou mundo objetivo, e Shoho, a personalidade ativa, ou mundo subjetivo. A sílaba ho significa o efeito manifesto, ou os resultados do carma. Os efeitos do carma de um ser vivo manifestam-se tanto em sua vida subjetiva com em seu ambiente objetivo.

Uma vez que funi significa “dois no fenômeno mas não dois na essência”, Esho Funi quer dizer que a vida e seu ambiente são dois fenômenos distintos mas apenas um em sua essência. As pessoas e seu ambiente são inseparáveis, mas Esho Funi como conceito vai além de indicar apenas a relação inseparável entre ambos.

Muitas pessoas sentem hoje como se não estivessem em equilíbrio com seu meio ambiente, o que parece simplesmente resultar em infelicidade. Mas foi a humanidade que seguiu contra o ritmo do mundo natural, poluindo-o e causando uma crise que começou a manifestar suas conseqüências no meio ambiente. A Unicidade da Vida e seu Ambiente é um princípio que sugere como as pessoas podem influenciar e reformar seu ambiente por intermédio de uma mudança interior, ou a elevação de seu estado de vida. Nesse princípio está contida a idéia de que assim como o ambiente influencia o indivíduo, este também pode causar uma mudança no ambiente.

O ideal é que os seres humanos vivam em harmonia com seu meio ambiente. A pessoa cria sua própria existência única de acordo com as leis da individualização e forma um ambiente único que seja compatível com ela. Mas a formação do ambiente deve coincidir com o surgimento da vida neste mundo; uma pessoa não pode surgir simplesmente flutuando no espaço, sem um ambiente. Cada um de nós tem um ambiente e, no entanto, cada um é essencialmente distinto. Portanto, todos nos relacionamos com nosso ambiente de modo diferente. A maneira como vemos o ambiente difere dependendo de nosso estado de vida e de nossas circunstâncias.

O meio ambiente é um reflexo da vida interior do indivíduo que nele habita. Esse ambiente assume as características que estão de acordo com a condição de vida do indivíduo em questão. Em outras palavras, a vida estende sua influência ao seu redor.

O princípio de Itinen Sanzen inclui a Unicidade da Vida e seu Ambiente. De acordo com os Três Domínios da Individualização da Vida, Shoho corresponde aos Cinco Componentes e ao Ambiente Social e Eho, ao Ambiente Natural. A consciência do ser vivo pode ser descrita como Shoho e os outros quatro dos Cinco Componentes — Forma ou corpo, Percepção, Concepção e Volição — existem para fazer com que o indivíduo interaja com outros seres vivos e com o ambiente natural, que juntos formam o eho. O Itinen Sanzen revela que tanto o Shoho como o Eho são inerentes num único momento da vida. O budismo considera que a vida abrange uma vasta extensão de influência e de atividade que integram tanto os seres vivos como seu ambiente.