segunda-feira, 27 de abril de 2009

Como nossas orações são respondidas?


Vivemos em uma sociedade em que a maior parte da população acredita em princípios cristãos, em que o homem vive regido por um ente superior. Onde “o homem é infinitamente pequeno, um quase nada, enquanto a graça de Deus é tudo. E esta graça vem de fora. Provém de uma outra fonte: Deus.” (Terceira Civilização, junho de 2005.)
Vamos refletir: Qual é a origem da palavra “deus”?
Bom, são atribuídas várias origens para a palavra “deus”, mas, de acordo com algumas fontes, vem do grego theos, que significa “força”.
Quando os primeiros homens passaram a observar a natureza havia muitas manifestações naturais que eles não compreendiam como, por exemplo, os raios e trovões. Tais eventos, por estarem além de sua compreensão, passaram a ser mistificados e atribuídos a um ente superior, um deus. Surgiram os deuses do fogo, da água, da chuva e outros. A força da natureza foi mistificada e relacionada a diversas entidades, dando origem às mitologias de muitas civilizações.
O homem, desde essa época, sentia forte necessidade de viver em paz consigo mesmo e com seus semelhantes. Neste momento surge a oração para, ao mesmo tempo, possibilitar fazer oferecimentos a esse deus ou deuses e pedir sua benevolência na forma de paz e prosperidade.
Hoje, muitos acreditam que essa força grandiosa da natureza tem nome. Alguns chamam de Deus e nós, praticantes do Budismo de Nitiren Daishonin, denominamos Nam-myoho-rengue-kyo.
Mas, então, há diferença entre um e outro?
Sim, existe grande diferença. No Budismo Nitiren aprendemos que esta “força” que rege toda a vida do Universo, existe também dentro de nós. É uma força que sempre existiu inerentemente em nossa própria vida! Que essa força interior pode transformar as condições externas e garantir a conquista de objetivos, sejam individuais ou coletivos, e, principalmente, a verdadeira felicidade, desde que coloquemos nossa vida no ritmo dessa grandiosa lei do universo, o Myoho-renge-kyo.
Nitiren Daishonin afirma: “Contudo, mesmo que recite ou acredite no Myoho-rengue-kyo, se pensa que a Lei existe fora de seu coração, o senhor não está abraçando a Lei Mística mas um ensino inferior.” Também: “Se buscar a iluminação fora de si mesmo, então mesmo que realize dez mil práticas e dez mil boas ações tudo será em vão.” (Os Escritos de Nitiren Daishonin, vol. 1, pág. 2.)
E como conseguir que nossas orações sejam realmente respondidas?
“Além disso, um fator fundamental da oração é a sinceridade: um coração puro e determinado. Quando este ponto é a essência da oração, tudo se torna possível. Portanto, é necessário fazer da oração o momento de ampliar o coração, ser sincero consigo próprio, em primeiro lugar ‘abrir a mente’ para tudo o que é preciso mudar e, dessa forma, concretizar as metas”, explica Nitiren. E Ikeda Sensei completa: “Da mesma forma, quando fundimos o microcosmo de nossa própria vida à vida do Universo, somos capazes de manifestar uma ilimitada força que permitirá superar quaisquer dificuldades.” (TC, dezembro de 2005.)
Então, caros amigos, como podem ver, o que determina se nossas orações serão respondidas, ou não, somos nós mesmos. A resposta está em nosso próprio coração.
No budismo oramos para manifestar a força do Universo que existe dentro de nossa vida. É uma oração de decisão profunda, de aprimorar a vida e transformar qualquer circunstância. Jamais devemos sucumbir diante das condições externas, ficando numa posição de total dependência, apenas pedindo “aos deuses” para que a situação melhore. A força de transformar qualquer circunstância existe dentro de cada um de nós! Basta recitar vigorosamente o Nam-myoho-rengue-kyo e entrar em ação!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Kuon ganjo - Do passado ao início de tudo


Literalmente, “kuon” significa “remoto passado” e “ganjo”, o “início de tudo”. Juntos, “kuon ganjo” indicam o “tempo sem início”. Sob o ponto de vista do Budismo de Nitiren Daishonin, esse conceito não se refere apenas a um determinado momento ocorrido há muito tempo atrás ou no infinito passado. Podemos pensar em kuon ganjo como o momento (ou a realidade) que existiu no infinito passado e que se mantém até hoje, neste exato instante, e que continuará a existir pelo mais distante futuro. No Registro dos Ensinos Orais, Nitiren Daishonin explica que “‘Kuon’ significa o que não foi trabalhado, que não foi melhorado, mas que existe na forma como sempre existiu”, ou seja, que está como é originalmente, desde o infinito passado.

1) Qual a importância do conceito de kuon ganjo?


Quando analisamos de forma mais profunda os princípios filosóficos do Budismo de Nitiren Daishonin, inevitavelmente chegamos ao conceito de kuon ganjo. Sendo assim, seu entendimento é de fundamental importância para um melhor esclarecimento sobre essa vasta religião.


2) Qual o significado dos termos “kuon” e “ganjo”?


Literalmente, “kuon” significa “remoto passado” e “ganjo”, o “início de tudo”. Juntos, “kuon ganjo” indicam o “tempo sem início”. Sob o ponto de vista do Budismo de Nitiren Daishonin, esse conceito não se refere apenas a um determinado momento ocorrido há muito tempo atrás ou no infinito passado. Podemos pensar em kuon ganjo como o momento (ou a realidade) que existiu no infinito passado e que se mantém até hoje, neste exato instante, e que continuará a existir pelo mais distante futuro. No Registro dos Ensinos Orais, Nitiren Daishonin explica que “‘Kuon’ significa o que não foi trabalhado, que não foi melhorado, mas que existe na forma como sempre existiu”, ou seja, que está como é originalmente, desde o infinito passado.


3) O que é exatamente essa “realidade que sempre existiu e que não foi modificada?


Conclusivamente, é nossa própria vida. De forma um pouco mais detalhada, isso indica que, originalmente (desde kuon ganjo), possuímos os Dez Estados de Vida, incluindo o estado de Buda. Na Preleção dos Capítulos Hoben e Juryo, o presidente Ikeda afirma: “O Buda da iluminação real no remoto passado significa uma vida dotada com os Dez Mundos e que existe eternamente.” (Pág. 163.) Em outro trecho, ele descreve: “Kuon ganjo refere-se à origem fundamental da vida e do Universo. Essa vida primordial é a vida do Buda da Liberdade Absoluta de kuon ganjo, que é o próprio Nam-myoho-rengue-kyo. Nitiren Daishonin afirmou: ‘Remoto passado significa Nam-myoho-rengue-kyo.’ Quando a ilusão interior é dissipada, achamos que a vida, fundamentalmente, não tem início nem fim; ‘tornar-se um Buda’ quer dizer revelar e fazer surgir essa vida original, tal como ela é.” (Pág. 176.)


4) Então, o conceito de kuon ganjo oferece uma visão sobre a vida e o Universo?


Sim. Ainda na Preleção, o presidente Ikeda explana: “Sobre o assunto, o presidente Toda dizia: ‘A vida de Nitiren Daishonin, como a nossa, não tem início nem fim. A isso chamamos de kuon ganjo. O próprio Universo é uma grande entidade viva, sem começo nem fim. Porém, a Terra, isoladamente, tem um começo e um fim.’ Nossa vida não é uma ‘criação’ produzida por algum ‘criador’ ou por uma ‘divindade’. Ela existe junto com o Universo, e dessa forma continuará existindo infinitamente. Pode-se dizer que a vida é tanto criadora como criação.” (Ibidem.) Assim, nossa vida, bem como o Universo como um todo, sempre existiu e sempre existirá, por um período infindável e sem limites. Eis o conceito de kuon ganjo.


5) Estudando o conceito de kuon ganjo, podemos compreender mais profundamente tudo o que está em nossa volta, tanto as pessoas como as circunstâncias?


Sim. Na verdade, estamos rodeados de grandes companheiros com os quais viemos lutando juntos desde kuon ganjo, compartilhando angústias e vitórias. O presidente Ikeda cita na Preleção dos Capítulos Hoben e Juryo as seguintes palavras do segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, referindo-se a kuon ganjo: ”Fazendo um retrospecto, sinto como se fosse ontem que vivemos naquele mundo puro e agradável. Como é possível esquecermos o mundo magnífico onde um dia vivemos? Como é possível esquecermos os amigos com quem passamos a vida alegremente em absoluta liberdade? E como é possível esquecermos a promessa feita juntos na assembléia em que o Sutra de Lótus foi exposto?” (Pág. 165.) O presidente Ikeda, então, complementa: “Quando despertamos para kuon ganjo, este mundo saha tornar-se-á um mundo fundamentalmente feliz, puro e maravilhoso. Um mundo totalmente habitado por amigos que vivem em harmonia.” (Ibidem.) Enfim, tudo na vida possui um profundo significado, que podemos captá-lo por meio de uma visão sábia e aprimorada pela magnífica filosofia e prática do Budismo de Nitiren Daishonin.


6) Com que atitude podemos então enfrentar as dificuldades do dia-a-dia?


Temos a tendência de enxergar os fatos do dia-a-dia somente com base em nossa atual existência. Isso inclui o casamento, a família, o trabalho, os problemas de saúde etc. Entretanto, quando analisamos à luz do conceito de kuon ganjo, podemos compreender e despertar para a origem primordial de nossa vida. Podemos então tornar cada momento, desde o passado, o presente e o futuro, como o momento original do kuon ganjo. Na Preleção, o presidente Ikeda também afirma: “Para nós, que abraçamos e acreditamos no Gohonzon, que realizamos a prática do Gongyo e do Daimoku, cada dia é kuon ganjo. Podemos viver cada momento como kuon ganjo. O grande escritor Romain Rolland disse: ‘Viva o presente. Reverencie cada dia. Ame o presente, respeite o presente...’ Nitiren Daishonin ensinou a grande alegria de viver o ‘agora’ — o momento presente, que abarca tanto o passado eterno como o futuro infinito.” Portanto, o modo de vida embasado no conceito de kuon ganjo, ensinado no Budismo de Nitiren Daishonin, possibilita-nos enfrentar os impasses do dia-a-dia com vigor e esperança. E, sem dúvida, nossas atividades em prol do Kossen-rufu, objetivando a felicidade de todas as pessoas e a concretização da paz mundial, representam um movimento concreto para abrir e aperfeiçoar essa condição de vida.


7) Qual a origem do conceito de kuon ganjo?


O capítulo “Revelação da Vida Eterna do Buda” (Juryo) do Sutra de Lótus expõe o princípio de gohyaku jintengo, ou remoto passado, que é um período de tempo inimaginavelmente longo. Numa analogia, se pegássemos todas as partículas (átomos, em termos atuais) de todas as estrelas e planetas do Universo e, para cada uma, associássemos cerca de dezesseis milhões de anos, chegaríamos a um tempo inimaginavelmente longo. Diz-se que mesmo esse tempo é muito curto quando comparado ao gohyaku jintengo. Esse capítulo do Sutra de Lótus expõe que Sakyamuni, o fundador do Budismo na Índia, atingiu a iluminação pela primeira vez muito antes de gohyaku jintengo. Essa é uma forma literal e mais superficial de se entender o “remoto passado”, segundo os ensinos de Sakyamuni. Mas de um ponto de vista mais profundo, baseando-se nos ensinos de Nitiren Daishonin, o “remoto passado” é o “tempo sem início”, ou kuon ganjo. Diariamente, no Gongyo, recitamos o trecho Jigague do capítulo “Revelação da Vida Eterna do Buda” (Juryo), cujo principal tema é justamente a eternidade da vida do Buda. Assim, pode-se dizer que com a recitação diária do Jigague diante do Gohonzon enaltecemos a realidade de kuon ganjo em nossa vida na circunstância atual.


8) Como a iluminação de Sakyamuni num remoto passado pode ter algo a ver conosco?


Sakyamuni descreve no Sutra de Lótus sua própria percepção e iluminação. Porém, o que ele retrata no sutra é o aspecto último da nossa própria vida, isto é, que todos nós atingimos a iluminação, originalmente, num passado inimaginavelmente distante. Em outras palavras, significa que nossa própria vida está dotada com o eterno estado de Buda. E é justamente o Budismo de Nitiren Daishonin que esclarece esse ponto.


9) O que o Budismo de Nitiren Daishonin explica sobre isso?


A partir dos ensinos de Nitiren Daishonin, podemos descobrir o que possibilitou Sakyamuni atingir a iluminação no remoto passado de gohyaku jintengo. A causa fundamental de sua iluminação foi exatamente a Lei de Nam-myoho-rengue-kyo. Sobre isso, o presidente Ikeda comenta: “A identidade original de todos os budas é um estado de vida iluminado para o Nam-myoho-rengue-kyo. Esse estado de vida é tanto a essência da iluminação como a vida do Buda verdadeiro. Do ponto de vista do Budismo de Nitiren Daishonin, o ‘Buda verdadeiro’ é o Buda de Nam-myoho-rengue-kyo.” (Preleção dos Capítulos Hoben e Juryo, pág. 155.) Vale ressaltar que sem a revelação da Lei que possibilitou todos os budas a atingirem a iluminação, isto é, o Nam-myoho-rengue-kyo, não seria possível entender como as pessoas comuns dos dias atuais poderiam atingí-la. Portanto, o Buda Original Nitiren Daishonin abriu o caminho para que todas as pessoas comuns da época atual atingissem o estado de Buda com a Lei do Nam-myoho-rengue-kyo. E, mais do que isso, ensinou que nossa vida, que é de kuon ganjo, é infinitamente preciosa e una com o Universo. Essa compreensão nos leva a respeitar a vida de cada ser humano, abrindo o caminho para uma sincera compreensão mútua, convivência harmoniosa e resolução de conflitos.


Em “A sabedoria do Sutra de Lótus, um diálogo sobre religião no século XXI”, o presidente Ikeda explica: “O Buda do tempo sem início, ou kuon ganjo, o Buda que existe eternamente sem início ou fim é a própria vida do Universo. É o constante e incessante trabalho de conduzir todos à iluminação, sem um instante de pausa. De fato, esse Buda eterno e nós próprios somos um só. Isso significa que nós próprios viemos trabalhando para conduzir as pessoas à felicidade e empenhando-nos pelo Kossen-rufu desde o remoto passado, e não somente nesta existência.” (Brasil Seikyo, edição no 1.491, 16 de janeiro de 1999, pág. 3.)

domingo, 19 de abril de 2009

♥ A juventude eterna


Consciente ou inconscientemente, a humanidade tem buscado fórmulas para uma juventude mais duradoura. Como sabemos, a literatura de inúmeros povos é rica em textos sobre a juventude eterna. Sabemos, porém, que essa juventude secular não passa de uma ilusão que se contrapõe a um fator mais importante: envelhecer com sabedoria.
O milenar budismo tem na compreensão da velhice um dos eixos de sua filosofia. Somando-se ao nascimento, à doença e à morte, a inexorável velhice é tratada no budismo como um dos quatro maiores sofrimentos do ser humano, pois junto com ela vem o temor da inatividade, do descontrole do corpo e da mente, do abandono, da irrelevância social etc.
A humanidade convive com esse fato no seu dia-a-dia e a preocupação do budismo com esse fator natural é prova cabal de que ele não pode ser praticado fora da realidade.
A velhice causa um sofrimento eterno à humanidade justamente por estarmos na maioria das vezes iludidos em relação ao rumo que daremos à nossa existência. A juventude é sempre valorizada como uma dádiva, e não como um período de preparação para o inevitável futuro. Esse drama pode ser muito bem ilustrado pela parábola do pássaro Kankutyo, que mora numa fria montanha. Durante a noite, ele chora, lamenta pelo frio que está passando e promete construir seu ninho na manhã seguinte. Mas quando amanhece e o Sol começa a surgir, ele se esquece do frio, brinca irresponsavelmente até que chega o gélido vento do crepúsculo e volta a lamentar-se novamente.
Embora o envelhecimento seja um processo de anos, e o dia-a-dia do pássaro Kankutyo denote uma falta de atitude imediata, em ambos os casos a questão é a filosofia com base na qual se conduz a vida. E a vida é sempre uma questão de atitude imediata diante do carma. Eis porque, na Soka Gakkai, sempre se faz questão de treinar os jovens, pois disso depende uma existência proveitosa e uma velhice sábia.
No universo budista, não há velhice no conceito secular da palavra. A velhice secular só existe para aqueles que se esquecem do objetivo da prática da fé. Não raro, encontramos algumas pessoas lamentando que, depois que envelheceram, perderam seu lugar na organização, mas que sequer esforçam-se para pôr em prática todo seu conhecimento, experiência e sabedoria desenvolvidos no decorrer dos anos. Chega a ser contraditório.
Claro que a velhice é, secularmente falando, difícil de se aceitar. Mas o que é importante ser compreendido é que existem dois pontos importantes quanto à velhice: o primeiro é a velhice física, inevitável; e o segundo é justificar a inatividade intelectual dada à velhice física. E no que tange ao intelecto e à sabedoria, não se pode permitir ser dominado pela velhice.
Numa ocasião, o presidente Ikeda assim afirmou sobre a fé e o intelecto: “A fé é a derradeira essência do intelecto. Pela prática correta da fé, o intelecto brilha. A inteligência sem uma fé correta carece de uma firme âncora no solo da vida e, conseqüentemente, se torna desordenada.” (Brasil Seikyo, edição no 1.209, 6 de fevereiro de 1993, pág. 6.) Então, não é exagero interpretar que essa fé que ancora o intelecto é justamente o fator de jovialidade. O corpo pode não permitir mais exageros, mas a mente é insuperável!
Numa outra ocasião, o presidente Ikeda orientou: “A fé é o que nos torna jovens. A firme fé e a resoluta oração — nossa profunda determinação interior ou concentração de nossa mente fortalece nossa energia vital. Quando os senhores acreditam naquilo que é certo, quando direcionam seus pensamentos no rumo correto, obtêm a correta fé que conduz à felicidade. Nós, que praticamos a Verdadeira Lei, possuímos a suprema fé. Esta é a razão porque somos tão jovens e repletos de vigor e energia.” (Ibidem, edição no 1.218, 13 de março de 1993, pág. 4.) Então, fé é ação! E essa ação é a própria jovialidade que se eterniza em nosso carma.
Por esse prisma, podemos afirmar, sem medo de errar, que embora o corpo pereça com a velhice, é a mente, ou seja, a postura e a ação mentais do indivíduo, que o tornam eternamente jovem. Esse aprendizado prático, a ação de viver e direcionar a vida para rumos corretos, é que se transforma em nosso carma e é esse o fator que acumulamos existência após existência, tornando-nos eternamente jovens. É a juventude espiritual que importa; a juventude do espírito de procura. A juventude eterna do ponto de vista secular não passa de uma heresia, pois despreza a verdadeira natureza da vida e faz o ser humano buscar falsos horizontes.
E não se poderia deixar de relembrar algo tão dito e pouco praticado: quantos jovens já não se tornaram velhos pelo simples fato de terem abandonado o desafio de viver corretamente? E quantos veteranos deixaram de ser veteranos e se tornaram velhos, pelo simples fato de encararem a velhice física como limitadora da batalha do intelecto e da sabedoria contra a maldade que é inerente à vida?
O budismo nos oferece a fonte para vivermos de forma jovial, pois nos ensina o espírito de procura. Permitir-se deixar de lado o espírito de procura é condenar-se a envelhecer no sentido mais desagradável que a palavra permite interpretar: desatualizar-se, tornar-se obsoleto, em desuso. Essas são as perspectivas que a maioria das pessoas enxergam quando não têm uma verdadeira filosofia de vida.

♥ O que importa é o coração


Ouvimos com certa freqüência que “o que importa é o coração”.

Qual é o significado dessa frase sob o ponto de vista da prática do budismo?

De fato, o Buda Nitiren Daishonin enfatiza a importância do coração em diversos escritos. Por exemplo, no escrito “A Estratégia do Sutra de Lótus”, ele orienta seu discípulo Shijo Kingo sobre a importância de basear-se na fé na Lei Mística antes de qualquer outra tática ou estratégia. Daishonin afirma: “O que importa é o coração”. (The Writings of Nichiren Daishonin [WND], pág.1.000.) Quando já vivia no Monte Minobu, Daishonin também escreveu “O Tambor no Portal do Trovão” à seguidora Senniti-ama que morava na distante Ilha de Sado, incentivando-lhe: “Simplesmente observar o rosto um do outro seria insignificante. O que importa é o coração da pessoa. Encontremo-nos algum dia no Pico da Águia, onde vive o Buda Sakyamuni”. (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 6, pág. 99.)

A palavra “coração” possui, sem dúvida, uma enorme abrangência de significados. O Dicionário Michaelis define o termo da seguinte forma: “s.m. 1. Anat. Órgão oco e musculoso, centro motor da circulação do sangue. 2. O peito. 3. Objeto em forma de coração. 4. Sede suposta da sensibilidade moral, das paixões e sentimentos. 5. Amor, afeto. 6. Caráter, índole. 7. Pessoa ou objeto amado. 8. Coragem, ânimo. 9. Centro, âmago”. Além disso, ao lermos a palavra “coração” nos textos budistas em língua portuguesa, há uma questão a ser considerada conforme consta nos “Comentários sobre a tradução” do livro Os Escritos de Nitiren Daishonin, reproduzida a seguir: “Mente: A palavra japonesa kokoro ou shin, que é comumente traduzida como ‘mente’ ou ‘coração’, não possui um equivalente exato no português, pois é um termo que engloba tanto a mente de uma pessoa, como seu espírito, emoção, volição e psiquê. Também pode indicar ‘vida’ como uma entidade psicossomática. Dessa forma, a palavra ‘mente’ ou ‘coração’, que aparece no texto deve ser compreendida no sentido mais amplo possível”. (Vol. 1, Prefácio, pág. lviii).

Vejamos, então, alguns aspectos relacionados com a palavra ‘coração’ sob o ponto de vista da prática do budismo.

Na frase “O que importa é o coração”, acima apresentada, podemos observar na palavra “coração”, o sentido de “fé” como também da própria “vida”. Normalmente, diante das dificuldades da vida diária, as pessoas planejam diversas táticas e estratégias em busca de uma solução. Entretanto, Daishonin orienta seu discípulo Shijo Kingo a, antes de mais nada, basear-se na fé na Lei Mística. Em outras palavras, Daishonin indica o caminho da fé ao Gohonzon e a recitação do Daimoku como o ponto de partida para a solução dos problemas, fazendo uso da referida frase. Por outro lado, podemos também entender que a solução de quaisquer problemas na vida se encontra no interior de nós mesmos, isto é, no nosso próprio “coração”.

Em um discurso, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, cita essa frase dos escritos, afirmando: “A felicidade não nos é concedida pelos outros ou vem de algum lugar fora de nós, mas é algo que nós próprios devemos obter com o nosso próprio coração. Assim como Daishonin diz, ‘O que importa é o coração’. (WND, pág. 1.000.) Em outro escrito, encontramos a seguinte declaração: “A boa sorte vem do coração e torna a pessoa digna de respeito”. (WND, pág. 1.137.) A fé é o que nos capacita a fortalecer e aprofundar nosso coração no grau máximo.

Além do significado de “fé” e de “vida” apresentado anteriormente para a palavra “coração”, podemos entendê-lo também como “determinação”. O budismo expõe o princípio de Três Mil Mundos num Único Momento da Vida (itinen sanzen) que ilustra o quanto uma “decisão” ou “determinação” de uma pessoa em um dado momento é importante para a transformação de sua vida e das circunstâncias ao seu redor. O presidente da SGI, Daisaku Ikeda, expressa claramente a importância da determinação: “’O que importa é o coração’. (The Writings of Nichiren Daishonin, pág. 1.000.) Nisso se encontra a essência da vida. Nosso coração e nossa mente envolvem toda a sociedade, o mundo e o Universo. Tudo se decide pela determinação em nosso coração neste exato momento. O budismo explana o princípio dos Três Mil Mundos num Único Momento da Vida. Nosso comprometimento de manter firmemente a fé na Lei Mística tem o poder de criar uma transformação positiva em nós mesmos, no ambiente ao nosso redor e até mesmo no mundo. Essa é a imensa força de nossa determinação. A vida é uma batalha e nossos empreendimentos na sociedade também são — assim é a realidade. Portanto, é essencial vencer essas batalhas”. (Brasil Seikyo, edição no 1.735, 14 de fevereiro de 2004, pág. A3.)

O desenvolvimento do Kossen-rufu inicia-se sempre a partir da determinação, ou seja, o “coração” de uma única pessoa. Nitiren Daishonin declara esse princípio no escrito “O Verdadeiro Aspecto de Todos os Fenômenos”: “No início, somente Nitiren recitou o Nam-myoho-rengue-kyo, depois, duas, três e cem pessoas o seguiram, recitando e ensinando aos outros. Assim também será a propagação no futuro. Isso não significa ‘emergir da terra’? Quando a Lei tiver sido amplamente propagada, a nação japonesa inteira recitará o Nam-myoho-rengue-kyo. Isso é tão certo quanto uma flecha que, apontada para a terra, acerta o alvo em cheio”. (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 5, pág. 252). Em outras palavras, pode-se afirmar que a realização do Kossen-rufu para a felicidade de todas as pessoas é, em si, o próprio espírito e o “coração” do Buda Nitiren Daishonin. Portanto, como praticantes do Budismo Nitiren, ou melhor, como verdadeiros discípulos, torna-se de fundamental importância herdar esse “coração” do Buda que é o da realização do Kossen-rufu. Na época contemporânea, foram justamente os três primeiros presidentes da Soka Gakkai que herdaram verdadeiramente este “coração” do Buda, desenvolvendo um movimento sem precedentes de propagação do Budismo de Daishonin para a felicidade das pessoas em escala mundial. É por essa razão que o “coração” da unicidade de mestre e discípulo é um fator de extrema importância no correto caminho da prática budista.

No contexto do “coração” da unicidade de mestre e discípulo, cabe relembrarmos a frase do escrito “O Tambor no Portal do Trovão”, na qual Daishonin enaltece o “coração” da já idosa Senniti-ama que morava na distante Ilha de Sado: “Simplesmente observar o rosto um do outro seria insignificante. O que importa é o coração da pessoa. Encontremo-nos algum dia no Pico da Águia, onde vive o Buda Sakyamuni” (ibidem, vol. 6, pág. 99). Com certeza, apesar de não poder realizar o encontro pessoal com Daishonin pela longa distância e pela sua idade avançada, Senniti-ama mantinha uma prática da fé com o “coração” unido ao do seu mestre.

Enfim, independentemente das circunstâncias em que estejamos vivendo no momento, o mais importante é o “coração”, pois nele está o caminho para a vitória.

sábado, 18 de abril de 2009

♥ Como o Sansho Shima atrapalha a sua vida?


O conceito budista de “três obstáculos e quatro maldades” (sansho shima) elucida e classifica os diversos tipos de obstáculos e impedimentos que surgem ao praticar o budismo. O Buda Original Nitiren Daishonin refere-se a esse princípio em várias de suas escrituras, como na “Carta aos Irmãos”, na qual consta a seguinte passagem: “Se professar o Verdadeiro Budismo, os sansho shima surgirão em sucessão.” (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 1, pág. 239.)

Nessa frase, Nitiren Daishonin incentiva os irmãos Ikegami, mostrando que os obstáculos surgem justamente por se aprofundarem na prática da fé. Em outras palavras, os três obstáculos e as quatro maldades surgem a todo momento, tentando, de alguma forma, impedir nossa prática diária. Por isso, devemos estar sempre preparados para enfrentá-los.


Os três obstáculos são:


1) obstáculos dos desejos mundanos (bonno-sho), ou obstáculos causados pelos três venenos da avareza, ira e estupidez);


2) obstáculo do carma (go-sho), ou obstáculo gerado pelo mau carma criado por cometer qualquer um dos cinco pecados fundamentais ou dez maus atos. Esse obstáculo também é interpretado como oposição da esposa e dos filhos; e


3) obstáculo da retribuição (ho-sho), ou obstáculo das causas negativas criadas por ações dos três maus caminhos (Inferno, Fome e Animalidade). Pode ser interpretado também como os obstáculos impostos pelos soberano, pais ou outros em posição de autoridade.


As quatro maldades são:1) impedimento dos cinco componentes (on-ma), ou obstruções causadas pelas funções físicas e mentais da pessoa;2) impedimento dos desejos mundanos (bonno-ma), ou obstruções originadas dos três venenos, criando dúvida no Gohonzon;3) impedimento da morte (shi-ma), ou obstrução à prática causada pelo medo que a morte vincula; e
4) impedimento do Demônio do Sexto Céu (tenshi-ma), tradicionalmente a perseguição por parte de homens do poder.


O ponto importante é reconhecer que os obstáculos e as maldades são funções tentando nos influenciar e nos amedrontar de forma a obstruir o desenvolvimento de nossa prática da fé. O surgimento dos obstáculos é, na verdade, a maior prova do progresso da nossa fé. Portanto, quando identificamos essas funções, devemos manifestar a força e a coragem para desafiá-las, e jamais permitir que nos derrotem. Quando enfrentamos com toda a perseverança e ultrapassamos esses obstáculos, podemos elevar a nossa condição de vida. Esse é o verdadeiro caminho dos seres humanos para a felicidade.

Impedimento do Demônio do Sexto Céu


Dentre as quatro maldades, o impedimento causado pelo Demônio do Sexto Céu (tenshi-ma) é o mais difícil de superar. O Demônio do Sexto Céu manifesta-se como “agente positivo” que induz as autoridades ou os pais a perseguirem os praticantes do budismo.


Sobre isso, o presidente Ikeda orienta: “O budismo é uma eterna batalha entre o Buda e as funções malignas — entre as forças iluminadas e destrutivas inerentes na vida e no universo. É uma luta contra as funções malignas e aquelas que estão presas sob sua servidão, contra as forças que buscam obstruir a propagação budista, a felicidade das pessoas e o progresso do Kossen-rufu. O furioso ataque das funções malignas é extremamente forte porque o Demônio do Sexto Céu, o obstinado comandante dessas forças destrutivas, domina o mundo das questões humanas.” (Brasil Seikyo, edição no 1.582, 2 de dezembro de 2000, pág. 3.)

Mas de onde se originam os obstáculos?


As escrituras de Nitiren Daishonin ensinam que, de forma geral, derivam-se da escuridão fundamental inerente na vida (gampon no mumyo, em japonês). Essa escuridão é a fonte de todas as ilusões e age para obscurecer nossa natureza de Buda. Todos possuem dentro de si tanto a natureza iluminada como a escuridão fundamental. A iluminação e a ilusão possuem uma única entidade. Elas são, por assim dizer, dois possíveis aspectos ou expressões da vida. Porém, quando nos dedicamos à prática budista, podemos extrair e perceber a preciosa realidade da nossa natureza de Buda. Em contrapartida, quando preferimos a ilusão, nossa natureza de Buda permanece encoberta pela escuridão fundamental.


A ilusão, ou seja, a escuridão e o negativismo, manifesta-se na vida na forma de vários obstáculos, tanto internos como externos. Para superá-los, é importante empenhar-se na prática da fé buscando manifestar o estado de Buda e se dedicar tanto para a própria felicidade como para a de outros.


Na escritura “Carta aos Irmãos”, consta a seguinte passagem: “O sutra Rokuharamitsu afirma que se deve tornar senhor da sua mente em vez de permitir à sua mente dominá-lo.” (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 1, pág. 243.) Nessa frase, Nitiren Daishonin ensina a jamais permitirmos ser dominados pelo sentimentalismo gerado pelas maldades ou forças negativas. Devemos, sim, ativar as forças protetoras e positivas do universo por meio da sincera oração ao Gohonzon. Assim, manifestaremos a alegria em todas as questões da vida, crescendo e nos desenvolvendo até chegarmos à nossa revolução humana.


Naturalmente, como seres humanos, mesmo sendo fervorosos praticantes do budismo, há ocasiões em que ficamos doentes ou nos acidentamos; outras vezes, podemos enfrentar incêndios ou calamidades, como enchentes ou secas; ou ainda, em nosso dia-a-dia, podemos ter aborrecimentos no trabalho ou até mesmo na comunidade. Todas essas dificuldades podem ser classificadas como os ‘três obstáculos e quatro maldades’ tentando impedir nossa atuação em prol da paz mundial. Por outro lado, essas mesmas dificuldades podem ser interpretadas como elementos que contribuem para a transformação do nosso carma, assim como a flor de lótus nasce em meio a águas lamacentas.


Em um trecho da escritura “Carta aos Irmãos”, Nitiren Daishonin afirma: “Se a propagar, maldades surgirão infalivelmente. Se não fossem estas, não haveria modo de se saber que este é o ensino correto.” (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 1, pág. 239.) Compreendendo essa frase, devemos nos empenhar ainda mais na prática da fé cientes de que o surgimento de obstáculos e maldades é a prova de que praticamos o Verdadeiro Budismo, capaz de nos conduzir à felicidade absoluta. Se uma pessoa pratica um ensino fraco, não encontrará impedimentos. Porém, quando se devota a um forte ensino, capaz de transformar seu mau carma, dissipar a escuridão inata na sua vida e evidenciar a suprema condição do estado de Buda, sua prática encontrará obstáculos.


Na escritura “Comportamento do Buda”, consta : “O quinto volume do Maka Shikan diz: ‘Desde que uma pessoa já tenha avançado na sua prática e compreensão, os três obstáculos e quatro maldades surgirão em sucessão.’ Afirma também: ‘A influência de tais obstáculos é como a de um javali arranhando uma montanha dourada somente para fazê-la brilhar; ou rios fluindo ao oceano para aumentar seu volume; ou combustível adicionado ao fogo para aumentar sua força; ou o vento soprando para expandir o corpo de um inseto chamado Gura.’” (Ibidem, pág. 169.) Com base nessa frase, ao defrontarmos com obstáculos e dificuldades, devemos fortalecer a prática da fé, para assim mudarmos nosso aspecto e transformarmos o sofrimento em felicidade.


O presidente Ikeda orienta: “O ouro também possui um profundo significado no budismo. Não pode ser destruído pelo fogo nem ser corrompido ou corroído pela água. Da mesma forma, uma pessoa que abraça uma filosofia verdadeira pode conduzir uma existência dourada, uma vida que não pode ser corrompida nem destruída por nenhum obstáculo nem maldade que estiver em seu caminho. É isso o que o budismo ensina. Conduzam uma existência dourada! — esse é o propósito fundamental do budismo e da vida.” (Brasil Seikyo, edição no 1.551, 8 de abril de 2000, pág. 3.)


Muitas vezes, acreditamos que receber benefícios visíveis é a única comprovação de que praticamos corretamente. Porém, com base no ensino de Nitiren Daishonin, o surgimento de obstáculos pode também ser uma imensa prova de nosso progresso na fé. O essencial é jamais sermos influenciados ou amedrontados por eles. Os sofrimentos podem ser um bom professor e um bom meio para nos levar a uma fé mais pura e a um estado de vida mais elevado. A verdadeira compreensão disso fortalecerá nossa convicção de que não haverá situação adversa que seja intransponível.


Quando estabelecemos um objetivo e nos dedicamos firmemente visando à sua concretização, é natural encontrarmos diversos tipos de resistência, pois quanto maior nossa determinação e prática, maiores são os obstáculos. Por isso, ao enfrentarmos dificuldades, devemos fortalecer nossa determinação para resolvê-las. Com isso, faremos do obstáculo um trampolim para o nosso desenvolvimento. Na verdade, quanto maiores os obstáculos, maiores os benefícios que desfrutaremos.


O caminho para fortalecer nossa vida e superar os obstáculos está, sem dúvida, na ação concreta da prática budista de jigyo keta (prática individual e prática altruística). Quando canalizamos nossos esforços para o avanço do Kossen-rufu, enfrentando e ultrapassando todas as dificuldades, infalivelmente transformamos nossa vida e conquistamos uma inabalável felicidade.


O presidente Ikeda afirma: “Uma batalha resoluta, exatamente como um rio colidindo estrondosamente contra as rochas, encontrará inevitavelmente obstáculos e funções malévolas. Se os senhores perseverarem adiante, não permitindo a si próprios serem derrotados em suas batalhas, irão se mover como as ondas com crescente ímpeto e obterão grandes resultados — assim como um rio flui com crescente força a cada vez que colide contra as rochas, correndo com grande vigor.” (Brasil Seikyo, edição no 1.248, 6 de novembro de 1993, pág. 5.)


Em suas escrituras, Nitiren Daishonin salienta que enfrentar obstáculos e perseguições em prol da paz e da felicidade das pessoas é motivo de alegria, conforme declarou num trecho da “Resposta a Hyoe-no-Sakan”: “Existe, definitivamente, algo extraordinário no avanço e no recuo da maré, no levantar e no descer da lua, e nas mudanças das estações. Algo incomum acontece também quando uma pessoa comum atinge o estado de Buda. Indubitavelmente, com o aparecimento dos três obstáculos e quatro maldades o sábio alegrar-se-á, e o tolo se acovardará.” (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 1, pág. 250.)


Em uma orientação, o presidente Ikeda afirmou: “Quando uma tempestade devastadora de obstáculos cair sobre nós, isso representa uma chance para transformarmos o nosso destino, uma oportunidade para assegurarmos a eterna felicidade da concretização do estado de Buda. Essa era a grande convicção do presidente Toda. Além do mais, Daishonin declarou: ‘Aqueles que têm coração de leão com certeza atingirão o estado de Buda, assim como Nitiren’ (The Writings of Nichiren Daishonin, vol. 1, pág. 35.)” (Brasil Seikyo, edição no 1.299, 3 de dezembro de 1994, pág. 3.)


Enfim, o Buda Original Nitiren Daishonin nos ensina, por meio do princípio de três obstáculos e quatro maldades, qual deve ser nossa atitude para superar as dificuldades e transformar o mau destino. Portanto, devemos nos conscientizar que a atitude correta na prática da fé perante as adversidades é o caminho para a edificação da prosperidade da nossa família e da conquista de um indestrutível estado de felicidade.

A terra pura do Pico da Águia


A terra pura do Pico da Águia, da qual Nitiren Daishonin fala, certamente não se refere a nenhum reino lendário como o paraíso ocidental chamado Terra Pura da Perfeita Alegria, exposto pela escola budista Terra Pura (Nembutsu). Simplesmente, a terra pura do Pico da Águia representa o estado de Buda do Universo.
Nos escritos de Daishonin, lemos estas palavras: “Seu corpo e sua mente permeiam a totalidade do mundo dos fenômenos num único instante”. A vida de uma pessoa que falece, tendo praticado firmemente a Lei Mística, entrará em fusão com o estado vasto e ilimitado do Universo e será permeada por uma grande alegria. O presidente Toda dizia que isso era “entrar em fusão com o estado de Buda do Universo”.
Nos escritos de Daishonin, freqüentemente lemos trechos como: “Vamos nos encontrar na terra pura do Pico da Águia”, e “Sem falta, tanto a mãe como o filho vão para a terra pura do Pico da Águia”.
A terra pura do Pico da Águia representa o estado de Buda que pode ser atingido por todos os que mantêm a fé na Lei Mística até o fim da vida. Ali, mestre e discípulo, companheiros de fé, pais e filhos, cônjuges, familiares e todos os que estão unidos por profundos laços de vida, podem celebrar um jubiloso reencontro.
Procedentes do estado de Buda universal, os Bodhisattvas da Terra, aparecem neste mundo saha cheio de problemas, para cumprir a missão de conduzir os seres humanos à iluminação. Depois de cumprir a missão na vida, regressam uma vez mais ao estado de Buda do Universo — à terra pura do Pico da Águia. Esse é o “lar” eterno — na profunda dimensão da vida — dos corajosos Bodhisattvas da Terra, consagrados a propagar amplamente a Lei Mística. Um “lar” habitado por companheiros do tempo sem início.
Ser um “buda em vida” significa evidenciar nosso estado de Buda inato com base nessa consciência, e nos levantarmos com coragem no palco de nossa missão, sem nos afastar da dura realidade cotidiana, não só pela felicidade pessoal mas também pela felicidade dos demais. Ser um “buda na morte” significa entrar no caminho eterno da infinita alegria da Lei depois de ter cumprido a missão nesta existência, e empreender a viagem seguinte pelo caminho do bodhisattva para continuar cumprindo o juramento de conduzir as pessoas à iluminação.
O propósito desta existência é desenvolver um elevado estado de vida, por meio do qual possamos sentir verdadeiramente que somos budas em vida e na morte e que tanto uma condição como a outra estão imbuídas de alegria. Em outras palavras, cada momento desta existência é uma luta para consolidar esse estado de vida.
Neste escrito, Daishonin cita uma passagem do Sutra de Lótus: “A pessoa que mantém este [sutra] está mantendo o corpo do Buda”. Tal como essa passagem declara, Nanjo Hyoe Shitiro entrou no caminho eterno do nascimento e da morte no mundo do estado de Buda porque perseverou na prática budista e estabeleceu, ao longo de sua existência, essa elevada condição de vida. Daishonin tranqüiliza a monja leiga de Ueno com essas palavras. É como se estivesse dizendo a ela: “Seu falecido marido é, com absoluta certeza, um buda, tal como o Sutra de Lótus afirma”, “Seu marido venceu! Agora é a vez de a senhora vencer!”

Tanto a terra pura como o inferno não existem fora de nossa vida; eles somente podem ser encontrados em nosso coração. A pessoa que desperta para isso é chamada de Buda; e a que ignora é chamada de mortal comum. O Sutra de Lótus revela essa verdade, e quem abraça esse sutra perceberá que o inferno é a própria Terra da Luz Tranqüila.(...) Esse ensino é de importância fundamental; no entanto, vou compartilhá-lo com a senhora assim como o Bodhisattva Manjushri expôs o ensino secreto da possibilidade de iluminação na presente forma para a filha do Rei Dragão. Depois de ouvir sobre esse ensino, empenhe-se ainda mais na fé. A pessoa que, ao ouvir os ensinos do Sutra de Lótus, fortalece ainda mais a fé, é um verdadeiro seguidor do Caminho. Tient’ai declara: “Do índigo se obtém um azul muito mais intenso”. Esta passagem significa que se mergulharmos algo repetidas vezes em tintura de índigo, o resultado será um azul ainda mais forte que o das folhas da planta. O Sutra de Lótus é como o índigo, e o poder da fé de uma pessoa é como o azul que se torna cada vez mais forte. (WND, v. 1, pp. 456-457.)

O poder benéfico da Lei Mística: transformar o inferno na Terra da Luz Tranqüila

Tanto o inferno como a terra pura existem em nós. Acreditar que ambos existem em outro lugar é ilusão. É isso o que nos ensina Daishonin.
Nesse trecho da carta, Nitiren Daishonin encoraja a monja leiga de Ueno com um outro foco. Ele já não diz a ela sobre a iluminação do falecido marido, mas sim sobre a iluminação dela.
As pessoas que praticam o Sutra de Lótus podem comprovar na própria vida o princípio de que “o inferno é a Terra da Luz Tranqüila”. Em um de seus escritos, Daishonin diz a Shijo Kingo que, se fosse necessário para protegê-lo, ele o acompanharia mesmo no inferno. Daishonin diz: “Se o senhor e eu caíssemos no inferno juntos, encontraríamos o Buda Sakyamuni e o Sutra de Lótus ali”. Podemos entender na frase que, se Nitiren Daishonin e Sakyamuni estão presentes no Inferno, este deixa de ser inferno para tornar-se a terra do Buda. Nesse caso, os guardiões do inferno não atacariam os seguidores do Buda, e Yama, rei do inferno, não teria outra escolha senão proteger o Sutra de Lótus.
O Sutra de Lótus é um ensino capaz de transformar o lugar em que estamos na terra do Buda. Ter fé no Sutra significa empreender esse desafio. Conseqüentemente, é impossível que os seguidores de Daishonin que perseveram na prática do Sutra de Lótus devam sofrer no estado de inferno. A eles está assegurado um estado de vida de absoluta liberdade.
Daishonin queria transmitir esse ponto à monja leiga de Ueno. Muito embora, provavelmente, ela já tivesse escutado várias vezes sobre o princípio de que “o inferno é a Terra da Luz Tranqüila”, Daishonin queria que ela compreendesse esse ensinamento num nível muito mais profundo e que o manifestasse na própria vida. Essas passagens também transmitem o sincero desejo de Daishonin de que a monja leiga se dedicasse à prática budista com uma determinação ainda mais firme.

Nove consciências - A natureza mística da mente


O budismo identifica nove funções espirituais de percepção: as nove consciências. Os cinco primeiros tipos de consciência têm alguma relação com os fenômenos físicos. São as percepções sensoriais dos órgãos dos sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Em geral, para ativar esses sentidos é preciso algum estímulo material. Por exemplo, a fragrância de uma flor só é perceptível a quem cheirá-la e o sabor de uma fruta apenas é compreendido por alguém que a tenha provado.
A sexta consciência é o poder de um julgamento a partir da integração dos cinco sentidos ou cinco consciências. Por exemplo, ao encontrar um objeto bonito, mas de péssimo odor, pode-se rejeitá-lo. Todos os seres vivos dotados de um sistema nervoso central, independentemente do grau de desenvolvimento desse sistema, possuem a sexta consciência.
A sétima consciência representa o poder do pensamento. É a capacidade de julgar não somente com base na percepção dos cinco sentidos e de sua relação, mas à luz de experiências passadas, de circunstâncias externas, da razão, do que se conhece de fato como consciência. Esta é uma característica exclusiva dos seres humanos, que têm a capacidade de raciocínio e reflexão.
A oitava consciência é conhecida como um repositório ou o inconsciente, revelado por Freud. O inconsciente guarda as impressões da mente e, simultaneamente, produz novas ações mentais. É neste nível da consciência que está depositado o carma, ou seja, todas as ações da vida em sua plenitude, ultrapassando os limites temporais e da lembrança consciente, sob influência da lei de causa e efeito.
A nona consciência é o nível mais profundo da vida e é considerada imaculada ou livre de todas as impurezas que o indivíduo possa guardar em seu inconsciente ou oitava consciência como resultado de suas ações no passado. Quando a pessoa supera as limitações do carma, do julgamento baseada apenas na razão ou na consciência, da apreciação resultante da relação entre os cinco sentidos ou da própria parcialidade restrita de cada órgão sensorial, ela descobre e compreende o ilimitado potencial de sua vida, percebendo o poder oculto na nona consciência.
A forma como a pessoa lida com sua mente se reflete exatamente em seu corpo, em sua percepção sobre as circunstâncias a seu redor e em suas atitudes e postura diante de situações favoráveis ou adversas. Se um indivíduo, com carma de doença, deixar-se dominar pela mente, considerando apenas as limitações impostas pela oitava consciência – o repositório do carma –, não terá forças para lutar contra a enfermidade e reduzirá as chances de uma melhora ou cura.
Na verdade, a chave é ultrapassar os níveis limitados das primeiras oito consciências e ter convicção no poder ilimitado oculto na nona consciência. Nitiren Daishonin elucidou que a nona consciência é o “eu” essencial, que existe em todas as pessoas. Nesse nível profundo da vida encontra-se o estado de Buda, que se estende do infinito passado ao infinito futuro, e é a verdadeira entidade de todos os seres.

As nove consciências e os dez fatores


Um dos estudiosos mais famosos a empregar os métodos da ciência natural para explorar o subconsciente foi Sigmund Freud. Suas contribuições e a de seus colegas à humanidade, na segunda metade do século XIX, são inegáveis. Mas, em tempos antigos, estudiosos budistas já mergulhavam nas profundezas da psique humana nas camadas mais profundas da consciência. Em Escolha a Vida, o autor Daisaku Ikeda comenta a esse respeito: “Dois notáveis pensadores da escola Vijnanavada de filosofia da Índia, Asanga e Vasubandhu (ambos do século IV ), adicionaram novos conceitos aos então conhecidos seis sentidos. Os tradicionais seis eram a visão, a audição, o olfato, o paladar, o tato e um sexto sentido que controlava e unificava as funções dos outros cinco. Os conceitos adicionais propostos por esses grandes pensadores foram a faculdade de raciocinar em pensamentos profundos (manas-vijnana) e uma faculdade de introvisão mais profunda da natureza da vida (alaya-vijnana). O sétimo sentido, a faculdade da razão, envolve especulação profunda. O Eu de Descartes — ‘Eu penso, logo existo’— encarta-se nessa categoria. Os filósofos ocidentais seguiram até esse ponto. Vasubandhu, porém, adiantou-se para descobrir o oitavo sentido, mediante o qual ele pôde ver mais profundamente e sem ilusões a natureza da vida humana. Chi-i [Tient’ai] da China (século VI ), ao ampliar o pensamento de Vasubandhu, postulou um nono sentido (amala-vijnana), que chega à entidade espiritual última, ativadora de todas as demais operações psicológicas”.
Conforme pode-se observar, o budismo identifica nove funções espirituais de percepção. Os cinco primeiros tipos de consciência são percepções sensoriais obtidas pelos órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Referem-se, portanto, ao que se denomina “cinco sentidos”. Da sexta à nona consciência, estão compreendidas as funções perceptivas da mente humana.
A sexta consciência tem o poder de integrar os cinco sentidos e fazer um julgamento.
A sétima consciência é denominada consciência mano, em sânscrito, e representa o poder do pensamento. Em vez de fazer julgamentos sobre as coisas percebidas pelos cinco sentidos, procura encontrar ordem e leis dentro delas, à luz de experiências passadas e de circunstâncias externas. A consciência mano é característica exclusiva dos seres humanos, isto é, aqueles que possuem a razão.
A oitava consciência é chamada alaya (repositório). É o inconsciente revelado por Sigmund Freud por meio de análises dos sonhos. Esse repositório arquiva as impressões recebidas pela mente e, simultaneamente, produz ações mentais. Portanto, todas as ações da vida, que ocorrem sob a lei da causalidade, surgem dos domínios da oitava consciência, o repositório cármico.
A nona consciência é chamada amala. Embora a oitava abrigue causas boas e más, a nona, que se encontra no nível mais profundo da vida humana, é livre de todas as impurezas que o indivíduo possa trazer como resultado de suas ações e de vidas passadas.
O objetivo da prática budista é possibilitar às pessoas manifestarem o imenso potencial da nona consciência, o estado de Buda. Quando a natureza de Buda predomina, as demais oito consciências são expressas no mesmo nível elevado que a caracteriza. Dessa forma, por pior que seja o carma de uma pessoa, este pode ser transformado, uma vez que é formado por pensamentos, palavras e ações.
Muitos não atribuem ao pensamento tanta importância quanto dão às palavras e às ações na formação do carma. É um grande erro que cometem. Sob o ponto de vista do budismo, não há como “falar ou agir sem pensar”. Portanto, é fundamental que o indivíduo avalie os pensamentos ou as intenções que abrigam em sua mente, ou seja, que observe sua mente.
Em seu escrito “O objeto de devoção para a observação da mente”, Nitiren Daishonin diz: “Observar a mente significa concentrar a atenção na própria mente e perceber que ela contém os Dez Estados [Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranqüilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhisattva e Buda]. Esse é o significado de observar a mente. Por exemplo, embora enxerguemos os seis órgãos dos sentidos nas outras pessoas, não conseguimos ver os nossos próprios. Somente quando olhamos em um espelho limpo é que conseguimos ver, pela primeira vez, que possuímos todos os seis órgãos dos sentidos”.
Nesta frase, Daishonin esclarece a forma para elevar a condição de vida das pessoas: a recitação do Nam-myoho-rengue-kyo ao Gohonzon, o objeto de devoção da prática budista, o espelho da vida humana.

Ser o mestre da própria mente


Na explanação do escrito “Sobre atingir o estado de Buda nesta existência”, Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional, destaca: “Myoho-rengue-kyo é a Lei inerente à vida. A transformação contínua de nosso coração e nossa mente que se produz com a recitação do Daimoku resulta não só na mudança interior profunda como também na transformação de todo o nosso modo de vida, colocando-nos na rota para atingirmos o estado de Buda nesta existência, e gera um grande movimento em direção ao Kossen-rufu, ou seja, a transformação de toda a humanidade. A força dinâmica da mudança, em todos os níveis, é Myoho-rengue-kyo. (...) Pelo fato de a mente ou o coração ser a chave para atingir o estado de Buda nesta existência, não devemos ser derrotados por nossa fraqueza intrínseca. Esse é o propósito da prática budista. A mente das pessoas comuns, sujeita à ilusão, oscila a todo momento. Por isso, não devemos deixar que essa mente instável seja nosso guia ou mestre.
“Daishonin ressalta esse ponto nesta famosa passagem: ‘Torne-se mestre de sua mente, em vez de permitir que ela o domine’. (...)
“Para nos tornar mestres de nossa mente, precisamos ter uma excelente bússola na vida e um brilhante farol na fé. Não podemos nos permitir governar pela natureza inconstante, fraca e mutável da mente sujeita a ilusões de uma pessoa comum. Para sermos mestres de nossa mente, devemos conduzi-la na direção correta. Dessa forma, o verdadeiro mestre da mente é a Lei e os ensinos do Buda”.
Com a realização da prática budista, a recitação do Nam-myoho-rengue-kyo, as pessoas sentem brotar em seu ser a natureza de Buda, gerando uma profunda transformação interior. Elas podem, dessa forma, dar plena ação aos seus aspectos físico e espiritual como manifestações da Lei Mística.

Os benefícios da prática budista


Sem perceber a natureza da própria vida, as pessoas não conseguem erradicar as graves ofensas, que se referem à ignorância, a origem de todo o mal. Essa ignorância faz com que as pessoas cometam calúnias à Lei, denegrindo-a ou ao ensino correto do Budismo Nitiren.
No Budismo de Tient’ai, somente é possível erradicar essa ignorância por meio da prática da observação da própria mente; em outras palavras, da sabedoria. No Budismo Nitiren, a escuridão fundamental é erradicada pela espada cortante da fé, de acordo com o princípio de “substituição da sabedoria pela fé”. Essa é a essência da prática da recitação do Daimoku.
Ou seja, se a pessoa buscar a iluminação ou o benefício fora de si, não estará seguindo a prática da “observação da própria mente” — o caminho que permite vencer o mal fundamental da ignorância ou escuridão. Por isso, todos os esforços e boas ações para atingir a iluminação serão sem efeito; inúteis como calcular a imensa riqueza do vizinho. Como nenhuma dessas atitudes levará à erradicação da ignorância, se tornará uma “austeridade angustiante e sem fim”.
Por exemplo, se recitar Daimoku e, ao mesmo tempo, culpar os outros ou as circunstâncias, estará evitando o desafio de enfrentar a própria ignorância ou escuridão. Isso é o mesmo que buscar a iluminação ou os benefícios fora de si. Ao mudar interiormente num nível fundamental, começará a melhorar a situação. A oração é a força motriz dessa mudança.
É também importante não cair na armadilha de desenvolver uma fé dependente, depositando as esperanças de que as orações serão respondidas graças a poderes divinos ou transcendentais de deuses e budas. Esse é um exemplo típico de uma pessoa que vê a Lei fora de si mesma. Esse tipo de fé, cuja essência é o escapismo, era mantida pelos seguidores dos budas provisórios dos ensinos pré Sutra de Lótus.
Mesmo que esteja sofrendo, se tiver uma fé dependente, evitará os problemas. Não terá coragem para desafiar nem realizar esforços para mudar as circunstâncias. No entanto, sem empenho não há como acionar as engrenagens da revolução humana. Nesse caso, a fé serve como escudo para as pessoas se esconderem e fugir da realidade. Assim, elas esperam que os benefícios aconteçam apenas por estarem praticando o budismo. Sem enfrentar de frente os problemas e situações, nada muda, levando à dúvida.
As queixas e as lamentações são as principais portas pelas quais as dúvidas e as descrenças se infiltram. Porém, muitas vezes, mesmo sabendo que estão erradas, as pessoas agem dessa forma. Quando queixas e lamentações se tornam um hábito, funcionam como um freio que as impedem de crescer e avançar. É como se bloqueassem seu potencial, caindo no caminho da busca pela Lei fora de si mesma. Apesar de ser um grande desafio parar de lamentar, a Lei Mística possibilita às pessoas manifestarem a sabedoria para controlar essas tendências e usá-las como um trampolim para o crescimento e o desenvolvimento individual.

Confiança e as causas fundamentais da vida


O que é ser honesto?


Afirma o dicionário que é aquele digno de confiança.

Tanto “ser honesto” como “digno de confiança” são termos ligados à honestidade.


Que universo, então, é abarcado por essa virtude?


Alguns podem acreditar que tudo se limite a devolver o troco a mais na compra dos pães, por exemplo. Entretanto, a matéria a seguir, honestamente, propõe-se a tratar dos meios nos quais a honestidade pode atuar: na família, no trabalho, nos relacionamentos. Sem contar, em seu exercício pleno — a honestidade consigo próprio.


Será mesmo a forma plena?


Descubra quanto a unicidade de mestre e discípulo pode se manifestar na essência dessa virtude.

Pensamentos, palavras e ações — causas fundamentais da vida


Três categorias de ação que formam o carma de uma pessoa são identificadas pelo budismo como: ações mentais, verbais e físicas.


E como se forma o carma?


Existe uma seqüência.

Primeiro, as intenções (positivas e negativas) agem na mente.

Em seguida, essas intenções originam as palavras e as ações e, por fim, os efeitos dessas palavras e ações permanecem na vida da pessoa como uma espécie de força ou energia, manifestando-se mediante circunstâncias adequadas.
Observa-se, portanto, que tudo parte da intenção que a mente abriga.
Em vários de seus escritos, Nitiren Daishonin refere-se à mente como sinônimo de “coração”. Isso é perfeitamente aceitável, considerando-se que os sentimentos se processam na mente. Quando o Buda diz: “O coração é o que importa”, faz um alerta às pessoas para que prestem atenção à mente, capaz de gerar os mais diversos sentimentos.
Desse modo, para a formação de um bom carma, é preciso cultivar boas intenções, polindo a mente (ou o coração).
Fácil, não é! Mas há como conseguir.

O Buda também afirma: “Empregue a estratégia do Sutra de Lótus antes de qualquer outra. Então assim como diz o sutra, ‘Todos os inimigos serão vencidos’”.
Tal estratégia é a sincera recitação do Nam-myoho-rengue-kyo.

Já os inimigos, um deles pode não estar fora, e sim na mente do indivíduo.
O Nam-myoho-rengue-kyo dá início à mudança positiva que se processa no interior das pessoas, também chamada “revolução humana”.

Uma pessoa honesta e com o sincero desejo de mudar a si mesma torna-se capaz de reconhecer as próprias falhas, transformando-as em virtudes.
Pode-se concluir que, para praticar continuamente o budismo, é necessário ser honesto consigo mesmo.

No budismo, tudo é vitória ou derrota, e a honestidade (ou a falta dela) conduz a pessoa a um desses caminhos.
Nitimyo foi uma das fiéis seguidoras de Nitiren Daishonin.

Em uma das cartas endereçadas a ela, o Buda escreveu:


“O Sutra de Lótus contém palavras como ‘honestamente descartando os meios’; ‘tudo o que o senhor [Sakyamuni] expôs é verdade’; ‘honesto e correto, gentil na intenção’ e ‘gentil, pacífico, honesto e correto’. Por isso, as pessoas que crêem nesse sutra devem possuir uma mente tão firme quanto uma corda de arco completamente esticada ou uma linha reta perfeitamente desenhada por um carpinteiro. Podemos chamar esterco de sândalo, mas o esterco não produzirá a fragrância do sândalo. Um mentiroso jamais se tornará sincero porque alguém o chama de honesto. (...) Somente o Sutra de Lótus é a suprema verdade. Apenas as pessoas honestas são capazes de manter a fé nesse sutra, um ensino livre de toda falsidade”.


A respeito dessa frase, o presidente Ikeda teceu o seguinte comentário:

“O Sutra de Lotus é um ensino que incorpora a verdade das verdades. Daí vem a importância de manter a fé nele e praticar com um sentimento puro e honesto. Ao contrário, a pessoa com um coração desleal e desonesto não consegue manter a fé no Budismo de Daishonin. Da mesma forma, é impossível para os mentirosos maldosos continuarem por muito tempo no puro mundo do budismo. (...)
“A lei cármica de causa e efeito que opera em nossa vida é rigorosa. Em conseqüência, aqueles que dedicam a vida ao Kossen-rufu e que são sempre honestos e sinceros em suas atitudes com certeza serão vitoriosos no final. Ao contrário, as pessoas que mentem e enganam os companheiros de fé ou que procuram prejudicar nosso nobre mundo do budismo estão destinados à ruína. A vida dessas pessoas será caracterizada por uma miserável derrota.
“A verdade vence no final (...) Essa é a rígida lei da história”.


A filosofia de Nitiren Daishonin baseia-se na realidade.

É o que afirmam as famosas frases: “Budismo é razão” e “Budismo é vida diária”.

Despertar as pessoas para o seu ilimitado potencial inerente e não depender de forças ou circunstâncias externas para ser feliz; conscientizá-las da infalibilidade da lei de causa efeito, bem como da importância do momento presente são o foco do budismo.
Da mesma forma, o princípio ético da honestidade estabelece que, para viver de acordo com sua natureza, o ser humano precisa lidar com a realidade.

Fantasias, ilusões, desejos, intuição não são base para tomar decisões eficazes — decisões e ações eficazes são baseadas em fatos.
Por essa razão, as pessoas que agem com desonestidade ou que tendem a mentir, vivem no mundo da ilusão, ou como é chamado no budismo, escuridão fundamental.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Quatorze calúnias



  • A prática da fé reflete-se nas atitudes diárias

Podemos dizer que nossos sofrimentos são todos causados devido ao nosso mau carma criado no passado?


É bastante comum a postura de atribuirmos todos os nossos sofrimentos a um carma negativo que formamos em alguma época no passado.

No entanto, quando nos aprofundamos no estudo do budismo entendemos que muitas dessas dificuldades não são necessariamente efeitos de ações passadas, mas ao contrário, resultam de atitudes que praticamos no dia-a-dia que nada têm a ver com os ensinamentos budistas.

Muitas dessas atitudes são, na realidade, contrárias aos ensinamentos budistas movidas principalmente por influências dos ensinos provisórios, crenças e costumes regionais que incorporamos antes mesmo de conhecer o budismo.

Há também aquelas que acabamos aceitando devido à influência da própria sociedade atual.

Dessa forma, mesmo que nos dediquemos intensamente na recitação do Gongyo e Daimoku, nossos benefícios são reduzidos ou até mesmo apagados pelo que chamamos, no budismo, de calúnias.

Quando Nitiren Daishonin encontrava-se no Monte Minobu, recebeu oferecimentos de um seguidor chamado Matsuno Rokuro Zaemon que certa vez questionou-o sobre a diferença dos benefícios obtidos quando um sábio recita Daimoku e quando nós recitamos. Nitiren Daishonin responde da seguinte forma:


“Não existe diferença nos benefícios do Daimoku. O ouro é o mesmo, seja nas mãos de um tolo ou de um sábio. Contudo, existirá uma diferença caso recitar Daimoku opondo-se ao espírito do Sutra de Lótus.”


Na sequência desta carta, Daishonin cita um trecho das “Anotações sobre Palavras e Frases do Sutra de Lótus” (Hokke Mongu Ki) de Miao-lo, em que explana sobre o espírito do Sutra de Lótus, referindo-se às quatorze calúnias:


“Um erudito enumera os tipos de males da seguinte forma: ‘São quatorze as causas do mal:

1) arrogância,

2) negligência,

3) julgamento egoístico,

4) julgamento superficial,

5) avareza,

6) recusa à compreensão,

7) descrença,

8) recusa a ouvir,

9) dúvida errônea,

10) calúnia,

11) desrespeito aos crentes,

12) ódio aos crentes,

13) desconfiança aos crentes,

14) inveja aos crentes’.

Estas quatorze calúnias aplicam-se igualmente aos clérigos e aos leigos.

Quão temível é o pecado de cometer qualquer uma destas calúnias.”


Do ponto de vista do budismo de Nitiren Daishonin, as dez primeiras referem-se a calúnias contra o próprio budismo e as quatro últimas contra as pessoas que abraçam o Gohonzon e praticam o verdadeiro budismo.

Portanto, uma pessoa que acredita e coloca em prática o budismo com toda a seriedade estará deixando de cometer as dez primeiras calúnias de forma natural.

Porém, de acordo com esta passagem, ainda restam quatro causas que podem obstruir os benefícios que são relacionadas a atos contra os seguidores do budismo.

Assim, aqueles que praticam o budismo devem estar constantemente atentos para não cometerem uma das quatro últimas calúnias.

“Desrespeito”, “Ódio”, “Desconfiança” e “Inveja” em relação àqueles que abraçam o Gohonzon e praticam o budismo.

De acordo com este trecho da escritura de Nitiren Daishonin, quando se comete uma destas calúnias, mesmo que se recite Daimoku, e independentemente se é clérigo ou leigo, não se conquista benefícios.

Daqui podemos entender que é importante que todos aqueles que abraçam o Gohonzon intensifiquem dia após dia sua prática da fé e avancem continuamente visando a sua própria felicidade absoluta e o Kossen-rufu mundial, nunca se esquecendo de prezar e respeitar os demais companheiros que também oram diante do Gohonzon.



  • Aprimorar a fé e respeitar as pessoas


Poderia explicar mais detalhes sobre as quatorze calúnias que obstruem nossos benefícios no budismo?


(01) A arrogância - refere-se à atitude das pessoas que desprezam os ensinos budistas julgando-se acima deles.


(02) A negligência - na prática da fé refere-se à falta de dedicação nos três princípios da fé, da prática e do estudo.


(03) O julgamento arbitrário e egoísta - manifesta-se quando a pessoa faz uma interpretação parcial dos ensinos budistas.

Ocorre quando ela simplesmente julga o budismo unicamente com base em sua própria opinião e conveniência.


(04) A compreensão presunçosa e superficial - existe na falta de entendimento profundo do budismo ao mesmo tempo em que não se procura aprimorá-lo.

Esta atitude é comum nas pessoas que não buscam o estudo do budismo.


(05) O apego aos desejos mundanos - ocorre quando a pessoa dedica-se a alcançar seus objetivos sem ter como base a prática da fé.


(06) A falta de espírito de procura - é observada quando não existe o empenho em compreender os ensinos budistas, impossibilitando a pessoa até mesmo de diferenciar o budismo de outros ensinos.


(07) A falta de crença - é notada na total falta de fé no budismo.


(08) A aversão - é manifestada pela oposição e crítica direta aos ensinos budistas.


(o9) A dúvida ilusória - é caracterizada pela desconfiança e dúvidas com relação à efetividade deste ensino.


(10) A difamação - encontra-se no ato de menosprezar o ensino visando rebaixar a grandiosidade do budismo.


(11) O desprezo - é observado no ato de menosprezar os seguidores budistas.


(12) O ódio - é notado na falta de tolerância contra praticantes do budismo numa clara manifestação do domínio do estado de ira.


(13) A inveja - aos praticantes tem como meta a destruição da união harmoniosa da ordem budista.


(14) O rancor - refere-se aos ressentimentos guardados contra os praticantes budistas.


Em um discurso, o presidente Ikeda cita as palavras do primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, que, referindo-se às calúnias cometidas pelos clérigos da Nitiren Shoshu em sua época, escreveu:


“A calúnia contra a Lei não está limitada às pessoas que não abraçam a fé nem se aplica somente àquelas de outras escolas de Nitiren que acreditam em ensinos heréticos. Ela se aplica até mesmo aos seguidores do Verdadeiro Budismo que nutrem inveja daqueles que sinceramente conduzem uma vida de grande bem. Essas pessoas são descritas com estas palavras: ‘Embora essas pessoas acreditem no Sutra de Lótus, não obterão benefício e em vez disso incorrerão em punição’.


No escrito “Resposta ao Lorde Matsuno”, Daishonin nos ensina que mesmo que abracemos o Gohonzon, se nossas ações estiverem voltadas contra o espírito fundamental do Sutra de Lótus haverá, sim, diferença nos resultados da recitação do Daimoku, isto é, nossos benefícios serão obstruídos. O significado de opor-se ao espírito do Sutra de Lótus refere-se especificamente aos quatorze tipos de calúnias. Portanto, este princípio nos ensina que para desfrutarmos de todos os imensuráveis e ilimitados benefícios contidos no Gohonzon devemos nos aplicar continuamente ao aprimoramento de nossa fé em meio às atividades da SGI sempre prezando e respeitando nossos companheiros que também abraçaram e recitam o Daimoku diante do Gohonzon.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Ser humano e buda


O budismo é a denominação dada aos ensinos do Buda. A palavra “Buda” significa “aquele que despertou” ou um ser que se “iluminou” para a verdade. Sakyamuni, o fundador do budismo, despertou para a Lei da vida que permeia o Universo, a natureza, o ser humano e todos os outros fenômenos. A “Lei” significa uma verdade ou princípio eterno de que todo o Universo é uma entidade e que nada existe a parte da Lei da vida.
Nitiren Daishonin expressou o conteúdo do Sutra de Lótus de Sakyamuni na forma em que todas as pessoas pudessem praticá-lo, isto é, a invocação do Nam-myoho-rengue-kyo, o ensino correto para ser propagado nos Últimos Dias da Lei. Nitiren usou o Myoho-rengue-kyo, o título do Sutra de Lótus conforme traduzido por Kumarajiva, para representar sua iluminação, adicionando a palavra Nam, que significa “devoção”. Seus ensinos possibilitam às próprias pessoas tornarem-se Budas, ou seja, todas as pessoas têm o potencial de atingir a iluminação.
Nos escritos consta: “O príncipe Sidarta (ou seja, Sakyamuni) foi um ser humano que se tornou Buda” (WND-1, página 359.) Buda, portanto, é o próprio homem que descobre a verdade eterna e adquire um poder denominado “boa sorte”. A iluminação referida no budismo não é mística nem transcendental. É uma condição de máxima sabedoria e vitalidade, na qual o indivíduo pode moldar o seu próprio destino.
É famosa a declaração do segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, quando os repórteres perguntaram-lhe se ele pensava ser um buda: “Não, sou um ótimo exemplo de ser humano”.

Vazio espiritual e energia vital


O mundo contemporâneo é descrito nos sutras como repleto de discórdias e conflitos onde as pessoas vivem dominadas pelos três venenos da avareza, ira e estupidez.
É notório observar nos dias atuais pessoas agindo de forma insensata, irracional e precipitada, demonstrando claramente a existência do vazio espiritual. Por mais difícil que seja a realidade e injusta a situação que se encontra, nenhuma ação justifica agredir a própria vida, o mais precioso tesouro, algumas vezes com atos violentos que acabam encerrando de forma triste e melancólica a presente existência.
Está muito claro que tais pessoas são carentes de uma filosofia, capaz de eliminar esse vazio espiritual e preencher a vida de força, coragem e vitalidade. É preciso, sem demora, cultivar um novo alento que transforme a vida destruída e enfadonha em esperança e vigor. Se o coração das pessoas for devastado, o futuro delas será muito sombrio, mesmo que vivam em uma nação próspera.
Urge fortalecer a energia vital das pessoas, a força vital interior que as capacita a usar ao máximo os respectivos talentos e habilidades. A energia vital é a fonte da sabedoria e tenacidade que nos permite manifestar a verdadeira humanidade e expandir o palácio da igualdade humana. Uma pessoa dotada dessa energia da vida é capaz de desenvolver a criatividade, o caráter e a paciência, como também, o espírito de desafio e a força para sobreviver. Uma pessoa de forte energia vital não se rende às adversidades; ela revela ações corajosas nos momentos de dificuldades.
A firme prática do Gongyo e Daimoku é a fonte inesgotável dessa energia vital, bem como, da sabedoria e boa sorte.


O Sutra de Lótus é o “meio secreto e místico”

Em “A Sabedoria do Sutra de Lótus” o presidente Ikeda afirma que a palavra “secreto”, de “meio secreto e místico”, refere-se ao fato de ser algo conhecido e compreendido apenas pelos budas (vol.1, pág. 143.) E, a palavra “místico”, de “meio secreto e místico”, indica a natureza maravilhosa e insondável da própria vida humana (ibidem, pág. 145).
Em sua mensagem “O Sutra de Lótus — excelente remédio para toda a humanidade”, o presidente Ikeda escreve: “O sutra tem o magnífico poder de transformar a situação em que a pessoa vive numa condição marcada pela paz e tranqüilidade, uma autêntica Terra da Luz Eternamente Tranqüila. A força de que trata essa analogia é o conceito da natureza de Buda apresentado no Sutra de Lótus. Os seres humanos, embora lutando no meio da violência, do egoísmo e da ignorância, possuem na verdade, e sempre possuíram, dentro de si, a natureza de Buda, capaz de criar uma felicidade ilimitada. O sutra ensina como fazer com que essa força se manifeste. Assim, o Sutra de Lótus é, para os seres humanos, um remédio magnificamente bom, representando um método para revitalizar e dar novo significado à vida”. (Brasil Seikyo, edição no 1.917, 24 de novembro de 2007, pág. A4.)
O supremo ideal do Kossen-rufu torna-se cada vez mais urgente e imprescindível para a época atual. Na qualidade de bodhisattvas, os praticantes do budismo possuem a importante tarefa de propagar o Sutra de Lótus com forte senso de missão e responsabilidade. A modernidade exige ainda mais que essa prática seja baseada nos poderes do Bodhisattva Fuguen. Fuguen significa “o sábio universal”. Ou seja, o amplo desenvolvimento do Kossen-rufu será possível por meio da força da intelectualidade sábia e universal.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Segredos do Coração


Vamos chamar de segredos do coração todas as coisas pessoais que guardamos em nosso interior. Os tesouros são as boas coisas e o lixo, as más. Mas, hoje, vamos deixar de lado os tesouros, pois por si sós são benéficos para nós e para as pessoas que estão ao nosso redor, e tratar das coisas ruins, aqueles sentimentos negativos, o lixo que nos deteriora e corrói por dentro. O primeiro e principal ponto é: nunca devemos deixar entrar lixo em nosso coração.
Para conseguirmos isso, é fundamental recitarmos o Daimoku, principalmente quando somos magoados, ofendidos, injustiçados etc. Não existe “higienizador” de coração mais eficiente do que a sincera e persistente oração ao Gohonzon.
Agora, façamos uma reflexão sobre o que existe em nosso interior. Nossa condição de vida, o estado básico, é reflexo do que possuímos no coração. Uma pessoa que possui um coração mesquinho, que somente pensa em ter vantagem sobre as demais pessoas, só pode estar no estado de Fome. Quem nutre o ódio está no estado de Ira e quem tem o coração maldoso e pisa nos outros para obter vantagens pessoais está no estado de Inferno ou de Animalidade. Dessa forma, essa pessoa somente acumula para si mais e mais causas que vão enchendo seu coração de sentimentos ruins e negativos, os quais se manifestam em seu aspecto e em seu ambiente. Essa é, na realidade, a “escuridão fundamental da vida”, ou nosso “maior defeito”, no qual nem mesmo nós gostamos de pensar.
Podemos achar que ninguém sabe o que se passa em nosso coração, mas nossa vida “sabe”. E tudo que acumulamos virá à tona de diferentes formas que poderão nos levar, ou até mesmo aos nossos familiares, ao profundo sofrimento. Lutar contra nosso “maior defeito”, contra “a escuridão fundamental”, e tirar “o lixo de nosso coração” é uma tarefa difícil, mas a cada passo que damos nesse sentido estamos impulsionando nossa revolução humana. Vamos esquecer a frase “se todo mundo faz, por que eu não posso fazer?” e passarmos a ter a postura de fazer o que está de acordo com os ensinamentos budistas e as orientações do presidente Ikeda, pois na vida ninguém “paga a conta” do outro. Cada um terá de responder por seus atos.
O presidente Ikeda diz: “Falsos amigos são piores que inimigos públicos. Preciso de verdadeiros amigos.” (Terceira Civilização, edição nº 330, fevereiro de 1996, pág. 31.) Vamos pensar em nossos valores, nas lições que aprendemos da vida e principalmente na lei de causa e efeito. Apesar de falarmos constantemente da lei de causa e efeito, dizendo de sua incomplacência e rigorosidade, não devemos temê-la, mas utilizá-la a nosso favor. Por meio dela, vamos adornar nosso coração de tesouros preciosos. Nitiren Daishonin diz: “O tesouro do corpo é mais valioso do que o guardado no cofre; e o tesouro acumulado no coração é muito mais valioso do que o tesouro do corpo.” (END. vol. 1, pág. 297.) Cultivando o tesouro do coração, teremos forças para ultrapassar todas as dificuldades e asseguraremos a vitória na vida sem termos de nos arrepender no futuro, conforme orienta o Mestre: “O fato de uma pessoa ser derrotada pelas dificuldades da vida é algo muito triste. A atitude de vencer todos os problemas é a marca de um verdadeiro budista.” (Brasil Seikyo, 8 de abril de 2000, edição nº 1.551, pág. 3.)
“Aconteça o que acontecer, é vital reunirmos coragem e continuar a avançar, lembrando-nos sempre: ‘Está certo! Eu tenho a Lei Mística! Não há dificuldade que eu não possa superar!’ Enquanto possuirmos esse ‘espírito de luta’, nossa vida terá um grande desenvolvimento que estará de acordo com o princípio de que os ‘desejos mundanos são iluminação’, ou seja, nossos desejos e sofrimentos são como um combustível para nosso crescimento.
“Uma ‘semente’ pode ser pequena. Mas uma única semente contém todos os elementos necessários para criar uma árvore grandiosa com mais de trinta metros de altura. Esse é o ‘mistério da semente’. Quando plantamos em nosso coração a semente do estado de Buda, o Nam-myoho-rengue-kyo, e a cultivamos, criamos ilimitada boa sorte e sabedoria.” (BS, 4 de março de 2000, edição nº 1.546, pág. 4.)

Crise familiar e Revolução Humana


Na “Carta a Itinosawa Nyudo” consta a seguinte passagem: “Suponha que haja um jovem casal. O marido ama muito a sua esposa e a esposa pensa tão ternamente em seu marido que se esquecem completamente de seus pais. Em decorrência disso, os pais andam com roupas pouco espessas, enquanto o quarto do jovem casal é quente e aconchegante. Os pais não têm nada para comer, ao passo que os estômagos dos dois estão cheios. Esses jovens estão cometendo o pior tipo de conduta filial, e, no entanto, eles não vêem que estão fazendo algo errado. E uma esposa que deliberadamente dá as costas à sua própria mãe e um marido que vai contra o seu próprio pai não são culpados de uma ofensa ainda mais grave? (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 6, pág. 107.)
Nitiren Daishonin descreve nesse trecho uma conduta familiar em que são gerados causas e efeitos negativos pela relação hostil entre os familiares. Os pais de hoje foram jovens no passado e podem não ter prestado o devido cuidado a seus pais. Como efeito disso, são maltratados agora por seus filhos. Esses filhos, quando se tornarem idosos, serão desprezados da mesma forma. Caso esse ciclo não seja interrompido, isto é, se pais e filhos não se esforçarem para criar uma relação de respeito, de harmonia e de compreensão mútua, uns apoiando os outros, a felicidade será apenas um sonho distante.
Muitas vezes, os familiares sentem-se impotentes diante da crise familiar pelo fato de a solução depender unicamente deles mesmos. Nesse sentido, entre todas as dificuldades, os conflitos familiares são os mais difíceis e mais demorados de serem resolvidos quando continuarem agindo como simples mortais comuns.
A forma de transformar a crise familiar é o aperfeiçoamento consciente das qualidades e virtudes do único responsável que é o ser humano. Isto é chamado de revolução humana, cujo processo ocorre concretamente em meio às crises de relacionamento humano.
O ser humano é o protagonista de todos os problemas como também de todas as soluções. Tanto na menor unidade social chamada família, como nas maiores, como a comunidade, associações, empresa, governo ou nação, a tarefa de maior importância é o aperfeiçoamento do ser humano e a criação de excelentes valores humanos.
Intolerância entre familiares
Uma das relações familiares que gera constante conflito é a intolerância entre nora e sogra. Essa crise provém da natureza humana, que muitas vezes recusa-se a “compartilhar uma mesma propriedade”, isto é, os filhos. Essa natureza ou estado de vida vem à tona principalmente quando a relação entre familiares se torna mais acentuada, por exemplo, num convívio sob o mesmo teto. Essa relação somente se normalizará quando essas pessoas desafiarem a transformação dessa natureza própria do ser humano, deixarem de lado a disputa e direcionarem seus esforços para o bem-estar familiar.
No escrito “Carta aos Irmãos” que Nitiren enviou aos irmãos Ikegami, Munenaka e Munenaga, ele fez as seguintes recomendações: “Os senhores são como duas asas de um pássaro ou os dois olhos de um homem, e suas esposas são seus apoios. As mulheres estão numa posição de seguir e, ao mesmo tempo, de guiar os outros. Quando seu marido é feliz, a esposa sentirá realizada. Se seu marido é um ladrão, ela será também uma ladra. Isto não é um assunto somente desta existência”. (Ibidem, vol. 1, pág. 241.)

O relacionamento ideal

Nesse mesmo escrito, Nitiren destaca a relação entre marido e mulher com as seguintes comparações: “Um marido e sua esposa são tão íntimos como um corpo e sua sombra, as flores e seus frutos, ou as raízes e suas folhas em cada existência da vida. Os insetos comem as árvores em que vivem, e os peixes bebem a água em que nadam. Se a grama murcha, as orquídeas sofrem, e se os pinheiros prosperam, os carvalhos exultam. Mesmo árvores e gramas estão intimamente relacionados. Hiyoku é um pássaro com um corpo e duas cabeças e suas bocas nutrem um mesmo corpo. Hihoku é um peixe de um olho só e, assim, o macho e a fêmea permanecem juntos por toda a vida. Isto é ser marido e mulher”. (Ibidem, pág. 242.)
Conforme ensina o budismo, as pessoas criam causas positivas ou negativas por três meios: pela cabeça, pela boca e pelo corpo, que são as ações geradas pelo pensamento, pela fala e pela conduta. E essas ações são mais freqüentes e mais profundas nas relações familiares.
Aprimorar essas ações no convívio familiar é, portanto, de suma importância para se criar e compartilhar a harmonia e a felicidade entre os familiares.
Assim, criar a harmonia familiar é algo plenamente possível em qualquer situação. E isso deve ser tentado sempre, por mais que aparentemente dependa da boa-vontade de outros. Pensar o contrário é, na prática, ir contra a própria noção de família, esta já tão desconsiderada nos dias de hoje.